De 2001 até o último mês de junho, o Conselho Federal de Medicina (CFM) cassou o registro de 20 profissionais acusados de abuso sexual de paciente

CFM cassou registro de 20 profissionais por abuso sexual contra pacientes

CRM mulheres violentadas por médicosO caso do ex-médico Roger Abdelmassih, acusado de 56 estupros contra 39 mulheres, é retrato de uma violação rotineira no país. De 2001 até o último mês de junho, o Conselho Federal de Medicina (CFM) cassou o registro de 20 profissionais acusados de abuso sexual de pacientes — quase a metade do total de médicos que tiveram o direito de exercer a atividade anulado no período, 49. Só neste ano, já houve três casos de afastamento por abuso sexual. A cassação é a última das punições e só ocorre no CFM depois da análise de recurso apresentado pelo acusado. Ou seja, o número de denúncias que chegam aos Conselhos Regionais de Medicina é ainda maior. Neste ano, houve três casos de cassação por abuso sexual.

As primeiras acusações contra o ex-médico, considerado o “papa da fertilização in vitro”, no Brasil surgiram em 2008. A secretária de Abdelmassih foi ao Ministério Público e relatou que ele havia tentado beijá-la. O relato abriu possibilidade para que diversas pacientes fizessem o mesmo. Na maioria dos casos, Abdelmassih se aproveitava do momento em que as mulheres estavam sedadas para estuprá-las. A partir de 2009, mais de 50 processos éticos foram abertos contra ele no Conselho Regional de São Paulo (Cremesp). Em agosto do ano seguinte, a entidade cassou temporariamente o registro dele. A suspensão definitiva pelo CFM só aconteceu em maio de 2011, cinco meses após a condenação de Abdelmassih na Justiça. Naquele ano, outros nove médicos tiveram o direito de exercer a profissão anulado. Além dos estupros pelos quais é condenado, Abelmassih responde por 27 abusos em outro inquérito.

De acordo com o CFM, os processos levam em média de seis a oito meses para tramitarem, embora, na prática, o tempo seja maior. Isso porque a investigação começa no conselho regional e pode demorar a chegar à entidade federal. Fora do âmbito judicial, os médicos acusados de cometer abuso sexual são enquadrados em dois artigos do Código de Ética da profissão. Um deles criminaliza o atentado ao pudor. O outro diz respeito ao médico “aproveitar-se de situações decorrentes da relação médico-paciente para obter vantagem física, emocional, financeira ou de qualquer outra natureza”.

 

MP de São Paulo apura rede de apoio do médico Roger Abdelmassih
Ao menos cinco pessoas devem ser indiciadas por ajudar na fuga e na manutenção no exterior de Roger Abdelmassih, entre elas, a mulher dele, Larissa Sacco, considerada foragida. Prisão incentivou a denúncia de novas vítimas
Pelo menos cinco pessoas são consideradas suspeitas de facilitarem ou serem cúmplices da fuga de Roger Abdelmassih, 70 anos, para o Paraguai e devem ser indiciadas pelo Ministério Público de São Paulo. Faz parte da lista a mulher dele, Larissa Sacco, 37 anos. Ontem, a Interpol emitiu alerta para que países parceiros investiguem o paradeiro da ex-procuradora da República, desaparecida desde a prisão do marido, na última terça-feira, em Assunção. Condenado a 278 anos de prisão em 2010, Abdelmassih é acusado de 56 estupros contra 39 mulheres. Ele foi detido na capital paraguaia e passou as últimas duas noites no Presídio de Tremembé (SP), em uma cela isolada.A repercussão da prisão de Abdelmassih, na última terça-feira, mobilizou novas vítimas a relatarem outros casos. A Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo recebeu três ligações e uma declaração efetiva de uma mulher que diz ter sido abusada pelo menos duas vezes pelo médico enquanto estava sedada. Ela fez três tentativas de engravidar, sendo a última em 2001. “Ela desconfiou quando acordou da sedação e viu o médico em cima dela”, conta a delegada Celi Paulino. Com esta, sobe de 26 para 27 o número de denúncias de estupro que constam em outro inquérito movido contra o homem que já foi considerado o “papa da reprodução assistida no Brasil”.

De acordo com o promotor do Ministério Público de São Paulo Luiz Henrique Dal Poz, o desafio agora é desmontar a rede que possibilitou a fuga e a permanência de Abdelmassih no Paraguai. Para Dal Poz, o suporte financeiro do ex-médico vinha do Brasil. “Já (o suporte) do anonimato, da clandestinidade, pode ter alguém no Paraguai envolvido”, acredita. Na quarta-feira, o ministro antidrogas do país vizinho, Luis Alberto Rojas, afirmou que o ex-médico tem contatos influentes, desde políticos, policiais corruptos até dirigentes de futebol.

Correio Braziliense