Chávez tinha doença cercada de mistério e silêncio - :: Paraiba Urgente :: Portal de Notícias

Chávez tinha doença cercada de mistério e silêncio

RIO — No dia 30 de junho de 2011, uma doença misteriosa passou a fazer parte da história política venezuelana. Nessa data, Hugo Chávez anunciou à população que havia se submetido a uma cirurgia em Cuba por causa de um tumor maligno. A viagem foi a primeira de uma série que tornou o trecho Caracas-Havana uma ponte aérea frequente na agenda do presidente. A escolha do local não foi à toa: o relacionamento próximo com os irmãos Castro e a qualidade do atendimento médico na ilha tornaram Havana o lugar ideal para que Chávez fosse tratado em absoluto sigilo. O segredo sobre o câncer localizado na região pélvica se converteu em arma política do governo e da oposição, desencadeou uma série de rumores que influenciaram a campanha eleitoral e fomentou a discussão sobre se ele seria capaz de governar o país.

A doença forçou Chávez a abandonar durante meses o papel de mandatário onipresente para se converter em candidato virtual. O líder centralizador se viu forçado a contar com o apoio dos principais nomes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) para fazer propaganda em seu nome. A presença nas ruas foi substituída pela campanha intensa na internet, no Twitter e na TV. A enfermidade serviu também para moderar as expectativas do próprio presidente: se antes Chávez sonhava em comandar o país até 2030, após meses de tratamento, dispôs-se a seguir no poder até 2019.

O socialista Hugo Chávez passou a expressar maior religiosidade e emoção em público. Em abril de 2012, enquanto se recuperava de uma segunda operação, realizada em fevereiro, o presidente chorou e rezou implorando por sua vida durante missa celebrada em Barinas, sua terra natal:

— Dê-me sua coroa, Cristo, dê-me, que eu sangro, dê-me sua cruz, cem cruzes, mas dê-me vida, porque ainda me restam coisas para fazer por este povo e por esta pátria. Não me leve ainda, dê-me sua cruz, dê-me seus espinhos, dê-me sua espada que estou disposto a carregar, mas com vida.

Nos últimos tuítes, postados no dia 18 passado — data em que retornou a Caracas após mais de dois meses de internação em Cuba —, o presidente declarou que seguia “apegado a Cristo”. “Até a vitória sempre! Viveremos e venceremos!”, escreveu, numa mensagem retuitada por quase 30 mil usuários.

As tentativas de tratamento foram várias. Em Cuba, Chávez se submeteu a quatro cirurgias, ciclos de quimioterapia e radioterapia e sessões de oxigenação hiperbárica. O venezuelano chegou a cogitar em abril uma internação no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que teria sido oferecida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela presidente Dilma Rousseff, mas as exigências de Chávez — como fechar andares do hospital e revistar todos os visitantes — inviabilizaram a empreitada.

Cura anunciada duas vezes

Sem informações, os venezuelanos recorreram cada vez mais à imprensa e à internet. A cada ausência, novas informações e rumores surgiam sobre a evolução da doença. Tudo o que o Palácio de Miraflores mantinha reservado, vinha a público em colunas do jornalista Nelson Bocaranda, o primeiro a anunciar a doença de Chávez, e nos textos do colunista do GLOBO Merval Pereira. Somente após a última cirurgia, em dezembro, o governo passou a divulgar informes quase diários sobre o estado de Chávez.

Ao longo do tratamento, a cada viagem a Cuba, a cena se repetia. Após um período de incerteza, Chávez reaparecia em abrigo de ginástica em fotos sorridentes ao lado de Fidel Castro ou jogando bocha em Havana. Até mesmo duas semanas antes de seu falecimento, Caracas divulgou fotos do presidente ao lado de Rosa Virginia e María Gabriela, duas de suas filhas. Quando surgiam dados sobre a doença, acusava a oposição de empreender guerra psicológica contra ele e a Venezuela. E chegou a dizer, duas vezes, que estava curado. Quando percebeu que não poderia mais manter as aparências por sua conta, escolheu o vice-presidente, Nicolás Maduro, para o papel de sucessor.