Com alta do dólar, indústria reduz importação de insumos

tratorFalta fornecedor. Operários em fábrica de tratores em Curitiba: somente em cinco anos, cadeia de fornecedores para máquinas e equipamentos

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RIO — A alta do dólar, aliada à queda do consumo, vem freando a importação de insumos pela indústria brasileira que ganhou força após a crise de 2008. Estudo do banco Santander, concedido com exclusividade ao GLOBO, mostra que, depois de a participação dos produtos estrangeiros no consumo industrial do país crescer 7,2 ponto percentual em cinco anos, chegando a 20,4% em dezembro de 2014, o peso dos importados deve ter caído para 18,3% ao fim de 2015 e encerrar 2016 em 16%. Segundo a instituição, movimentos de estabilização ou mesmo de recuo desse indicador já foram observados nos setores de máquinas e equipamentos, produtos químicos, metalurgia e borracha e plástico. De um lado, abre-se uma janela de oportunidades para a indústria nacional. Do outro, porém, esbarra-se na incapacidade de se fazer novos investimentos para atender a esta demanda.

— Esses sinais de substituição ainda se mostram modestos e com perfil pouco disseminado, mas reforçamos a visão de que não se trata de um processo apenas temporário — explica Rodolfo Margato, economista do Santander e autor do estudo.

A necessidade de substituição para reduzir custos encontra alguns obstáculos.

— A indústria doméstica vai tentar buscar fornecedores internos. Mas, para algumas coisas, ela não vai conseguir. É um processo gradual e lento, porque muitas linhas de produção foram desarticuladas nos anos de dólar baixo. Setores como o de informática e produtos ópticos vão encontrar barreiras, pois não existem empresas com uma produção genuinamente doméstica. Se a recessão se prolongar, os segmentos da indústria que não contam com fornecedores locais vão sofrer mais e reduzir suas projeções de faturamento — analisa Margato.

Para o economista, o setor externo será o limitador da recessão neste ano:

— Apenas o setor externo vai contribuir positivamente para o PIB brasileiro em 2016, seja pelo aumento das exportações ou pela queda das importações. Ele será um atenuante da retração que se prolongará por este ano. A mensagem é que aos poucos alguns setores terão uma restauração da competitividade.

Renato da Fonseca, gerente de Pesquisa e Competitividade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), confirma que há uma tendência a essa substituição, e que ela ocorre mais pela queda da demanda do que pela desvalorização do real. Alguns setores esbarram em dificuldades para encontrar fornecedores nacionais:

— Essa pressão para substituir depende da capacidade do setor de fornecer esses insumos. Em alguns segmentos não conseguimos competir em larga escala. Há duas empresas coreanas que fornecem componentes eletrônicos para quase todo o mundo. Como competir? Pesa também o padrão de qualidade de cada empresa. Não dá para mudar de fornecedor sem levar isso em consideração. Mas, na medida que vai ficando mais caro, se questiona se vale a pena ficar pagando mais.

CÂMBIO VOLÁTIL DIFICULTA PLANEJAMENTO

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Carlos Pastoriza, diz que os dez anos de dólar baixo, entre 2004 e 2014, deixaram “buracos no tecido da indústria” que dificilmente serão preenchidos a curto prazo, o que dificulta a substituição de importados por produtos nacionais.

— Depois de dez anos de dólar baixo, deixando os importados artificialmente mais baratos, muitos fornecedores nacionais fecharam as fábricas de peças. Há buracos no tecido da indústria. Ocorreu um impacto na cadeia fornecedora que não tinha mais a quem fornecer. Vão ser necessários pelo menos cinco anos para que esses buracos sejam preenchidos, pois há uma grande insegurança com relação à estabilização do dólar, que impede que investimentos voltem a ocorrer — avalia o presidente da Abimaq.

Segundo Pastoriza, a queda na importação de insumos, que já faz parte da realidade do segmento, reflete a retração econômica que intensificou a queda da demanda que o setor já vem sentindo há três anos:

— Nos últimos três anos, nosso faturamento com a venda de máquinas e equipamentos já caiu 30%. Faturamos R$ 100 bilhões em 2012 e, em 2015, R$ 70 bilhões.

Segundo Fátima Giovanna Coviello Ferreira, diretora de Economia e Estatística da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), essa substituição já levou o segmento a ganhar 5% do mercado interno entre janeiro e outubro, com relação à participação de mercado no mesmo período do ano passado.

— De janeiro a outubro, a demanda interna recuou 6%, mas a produção local teve uma pequena alta de 0,9% por causa dessa substituição. Poderíamos tirar muito mais proveito desse movimento, mas não temos competitividade para trabalhar a plena carga. Operamos apenas com 70% da nossa capacidade instalada. A tarifa de energia é muito alta, a infraestrutura e a logística são muito caras. O preço da matéria-prima, do gás natural, da nafta são muito altos — diz ela.

Para Fátima, a substituição de importações que dependem de investimento dificilmente ocorrerá:

— O dólar alto favorece a eliminação parcial, daquela importação oportunista. Cerca de 70% dos fertilizantes que usamos no Brasil são importados. É algo que não dá para substituir de uma hora para a outra porque não temos fornecedores internos.

Para fomentar a indústria nacional, o governo precisa implantar uma política que dê ao setor isonomia em relação aos concorrentes internacionais e garantia de suprimento a longo prazo, afirma a diretora da Abiquim.

Na avaliação do economista Evaldo Alves, professor de Economia Internacional e coordenador do curso de Comércio Exterior e Negócios Internacionais da Fundação Getulio Vargas em São Paulo, a economia brasileira “ficou desatenta a seus fundamentos” e não se preparou para a volatilidade cambial:

— O governo deu sinal de que iria continuar protegendo a economia, mas, na prática, desorganizou o sistema de preços internos e desestimulou o aumento da produtividade. Houve queda na eficiência produtiva brasileira e perda de dinamismo da indústria. É necessária uma política de apoio aos produtos nacionais.

O Globo.