Copom se reúne sob forte expectativa de novo corte na taxa de juros

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central inicia nesta terça-feira (29/10) a penúltima reunião deste ano para definir a taxa básica de juros (Selic). A aposta dos analistas é de que o colegiado fará mais um corte de 0,5 ponto percentual, que deve ser anunciado nesta quarta-feira (30/10). No fim de julho, a autoridade monetária iniciou um ciclo de cortes chegando ao patamar atual de 5,5% ao ano. Se as projeções do mercado se confirmarem, a Selic deve ficar em 5% ao ano, novo piso histórico.

Para o pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Felipe Queiroz, a Selic deve diminuir em meio ponto neste ano e em mais meio ponto em 2020. “Em um cenário de inflação abaixo da meta e todos os indicadores apontando que o nível de atividade está abaixo do previsto, ou seja, desemprego alto e economia crescendo abaixo das expectativas, a previsão é de que há espaço para reduzir mais a taxa de juros”, disse Queiroz.

O economista reforçou que o boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (28/10), converge para esse cenário de  Selic a 4,5% ao ano a partir do ano que vem e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) quase um ponto percentual abaixo da meta, de 4,25%. “O cenário internacional não é de crescimento econômico, isso pode gerar pressão inflacionária. As expectativas estão se deteriorando com risco de recessão até no ano que vem. Isso afeta as expectativas e a economia real. Tudo isso contribui para que haja queda não apenas da taxa de juros, mas da atividade econômica”, avaliou.
Há quem aposte na Selic abaixo de 5% ainda em 2019, com corte de 0,75 ponto percentual, mas o coordenador do MBA em Gestão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira, ponderou: “O mercado imagina que possa cair mais de meio ponto. Qualquer sinalização já é positiva. Já estamos em um patamar historicamente baixo e é compreensível essa expectativa. Como a economia não pegou o ritmo que se esperava, um corte adicional na Selic pode ajudar, mas não é certo”, destacou.

A Selic mais baixa ajuda a diminuir a velocidade de crescimento da dívida pública, entretanto, não é suficiente para reverter o endividamento. “Vai continuar crescendo por um tempo pelo deficit primário que ainda existe e continuará alto até que a economia comece a crescer novamente. Só quando o crescimento econômico for retomado, será possível verificar a reversão da dívida, fator essencial para a estabilização”, disse o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira.

Apesar da queda histórica, o novo piso histórico não é refletido nas taxas cobradas pelos bancos aos consumidores, que continuam altas. O spread bancário médio de pessoas físicas, a diferença entre o custo de captação do dinheiro que o banco paga para deixar o dinheiro em conta-corrente, poupança ou outro investimento, e aquele cobrado nos empréstimos bancários, passou de 45,5 ponto percentual para 45 na variação mensal.

Concentração

Para Felipe Queiroz, os juros altos são resultado da concentração bancária e uma taxa de desemprego alta, já que é levada em consideração a inadimplência. “O custo do empréstimo para as famílias e empresas é muito elevado no país. Desde 2016, os bancos têm mudado a sua estratégia e se os bancos públicos aderem a taxas mais agressivas, isso sobe as taxas dos outros bancos”, acrescentou o pesquisador.
Ricardo Teixeira argumentou que a justificativa da inadimplência deve ser atenuada nos próximos meses com o cadastro positivo. “Há expectativa de que o histórico de crédito das pessoas passe a ser melhor acompanhado e que, assim, instituições consigam fazer melhor avaliação de bons pagadores na hora de conceder financiamentos”, disse.

Dívida de servidor aumenta 13,7%

O endividamento do servidor aumenta paulatinamente desde dezembro de 2018. Naquela época, no crédito consignado, havia R$ 188,531 milhões em poder dos funcionários públicos. De lá para cá, o valor aumentou para R$ 212,852 milhões, segundo o Banco Central. Nos últimos 12 meses, o empréstimo dessa modalidade subiu 13,7%, percentual superior ao registrado pelos trabalhadores do setor privado (13,5%) e dos beneficiários do INSS (10,6%) no mesmo período. Em setembro, o apetite por dinheiro do funcionalismo também foi superior ao dos demais: 1,5% de alta no confronto com o mês anterior, contra 0,8% e 0,5%, respectivamente.

Quando a análise se restringe apenas aos nove meses de 2019, a alta na busca pelo consignado dos servidores (12,9%) foi menor que a dos empregados privados (15,1%), mas acima da dos aposentados (9,2%). O que chama a atenção, no entanto, é o montante total na mão do funcionalismo, R$ 212,8 milhões. O valor representa 74,8% do total de recursos emprestados em forma de consignado para todos os cidadãos do país, em setembro, que é de R$ 372 milhões.

Mesmo que a demanda tenha, em algumas comparações, sido maior para os trabalhadores da iniciativa privada, o valor global desse público ficou em R$ 22,483 milhões — e eles são cerca de 33,1 milhões de pessoas com carteira assinada no Brasil. Enquanto o funcionalismo, que lançou mão de quase sete vezes mais, são aproximadamente 11,3 milhões no país. Os aposentados — 20,3 milhões de inativos — embolsaram R$ 136,7 milhões.

O grande problema, principalmente para os servidores, é a falta de educação financeira, de acordo com Davi Telles, advogado e consultor financeiro. “O funcionário público fica mais encalacrado porque acaba recorrendo a vários bancos e categorias de crédito. No consignado, descontado em folha, o valor não pode ultrapassar os 30% do salário líquido. Mas, então, ele compromete o orçamento com crédito direto ao consumidor (CDC), cheque especial, cartão de crédito, entre outros”, destacou. O consignado tem taxas mais atrativas e é aconselhável quando trocado por dívidas mais caras. “Os servidores são muito procurados pelos bancos porque, além do salário alto, têm estabilidade”, disse.

Argentina endurece controle do câmbio

Continua depois da publicidade

O Banco Central da Argentina decidiu controlar o mercado de câmbio de forma mais dura para preservar as reservas internacionais, no dia seguinte às eleições presidenciais que deram a vitória ao opositor Alberto Fernández. “Na semana passada, observamos uma demanda importante por dólares. Dado o risco disso ser mantido nesta semana, decidimos aprofundar os controles. A partir de hoje (esta segunda-feira – 28/10), reduzimos o valor máximo que as pessoas podem comprar para 200 dólares por mês”, anunciou o presidente do Banco Central, Guido Sandleris. Ele afirmou que, desde as primárias em agosto, quando Fernández se tornou favorito, as reservas caíram US$ 22 bilhões. “Do total, US$ 12 bilhões foram antes de aplicados os controles em setembro e outros US$ 10 bilhões desde então”, disse Sandler.

 

Correio Braziliense