Depois de show no Rock in Rio, Emicida dispara: 'Sou f*** mesmo'

Depois de show no Rock in Rio, Emicida dispara: ‘Sou f*** mesmo’

Foto: MARCELO THEOBALD / Agência O Globo

Emicida deixa bem claro: modéstia não é o seu forte. Tanto que, ao falar sobre a sua importância para o crescimento do hip-hop nacional, gênero que tomou conta do Palco Sunset do Rock in Rio nesta quinta-feira, o rapper paulistano é bem direto.

— Eu não tenho modéstia, não, acho que eu sou foda, mesmo. Eu não tenho problema com essa parada. Acho que, sim, a gente trabalhou pra caramba para isso estar do jeito que está, mas ainda falta muita coisa — diz, bem-humorado, em entrevista concedida minutos após a apresentação.

Emicida subiu ao palco no penúltimo show do Sunset, junto com as irmãs gêmeas franco-cubanas Lisa-Kaindé e Naomi Díaz, do Ibeyi. O show antecedeu a apresentação de Baco Exu do Blues e companhia no chamado Hip-Hop Hurricane. Confira a entrevista completa com o rapper:

O show atendeu às suas expectativas?

Eu faço música para tirar onda, mano. Para me conectar. E essas expectativas todas foram cumpridas. Fiquei muito feliz, mano. Eu tô feliz para caralho.

-

– Foto: MARCELO THEOBALD / Agência O Globo

Por que você achou importante homenagear a Ágatha Félix (menina de 8 anos morta por uma bala perdida no Rio de Janeiro)?

Isso foi uma sugestão das Ibeyis. Elas vieram da gringa com essa ideia. É uma tragédia, faz parte da tragédia urbana que infelizmente faz parte da realidade brasileira. E elas vieram com essa ideia de fazer uma homenagem para a Agatha. E eu, obviamente, apoiei essa ideia porque não tem o que dizer. A gente precisa parar e olhar para essa história e dizer “mano, o Brasil está errado”. E qual o outro lugar importante para falar isso?

Qual a sua importância para esse protagonismo que o rap nacional vem ganhando nos grandes festivais? Sem modéstia.

Eu não tenho modéstia não, eu acho que eu sou foda, mesmo (risos). Eu não tenho problema com essa parada, modéstia não é o meu forte. Acho que, sim, a gente trabalhou para caralho para isso estar do jeito que tá, mas ainda não tá do jeito que a gente acha ideal, ainda falta muita coisa. Fico muito feliz de ter figuras com sensibilidade para captar a importância desse movimento, sendo responsáveis da curadoria de um palco como o Sunset.

Essa sensibilidade de conseguir perceber os movimentos que têm força e trazer para o palco faz parte da nossa conquista. Eu estou felizão. Acho que gente como o Rincón Sapiência, Rael, meus irmãos que vão passar pelo palco, eles têm um bagulho que é uma construção grande. Há muito tempo esses caras estão correndo, o Rael veio antes de mim, eu era fã do Rael. Esse era o nosso sonho há 20 anos atrás.

O rap permaneceu no underground por muito tempo. O que mudou?

Isso de underground é uma invenção que partiu de fora do rap, tá ligado? Quem tem esse amor pelo underground? Que favelado tem esse amor pelo underground? Underground é falta de estrutura, mano. Tem que pensar nisso. Durante um tempo a gente usou essa palavra porque ela era nova para nós. Porque os americanos falavam underground e a gente repetiu, a gente gostou.

Existe uma parada de você evoluir e alcançar mais pessoas com a sua música, mas mantendo a verdade da sua música, entendeu? Então não sei se esse é o termo que caracteriza essa cultura porque é uma música popular, mano. E música popular não tem limite. Isso é um preconceito da sociedade: “pretos, sisudos, os caras estão sérios falando de assuntos que o Brasil não fala…”. Mas não é isso: o discurso do rap, desde os anos 80, é o extremo oposto.

Como você conheceu as meninas do Ibeyi, que te acompanharam no show?

A gente se conheceu pelo Skype… Fica moscando que, a qualquer hora, o Emicida aparece até no seu Skype (risos). A gente se conectou e temos propósitos muito parecidos. Tanto que as pessoas acham que essas intervenções (no show) falando da sociedade brasileira são minhas, mas foram elas que sugeriram. Elas chegaram cristalizadas com essa ideia de fazer isso e a gente aceitou. Mas são elas. Para entender como elas são sensíveis. Então a gente se conecta muito com isso e, graças a Deus, quando a gente vai para estúdio, rola.

Pensam em fazer outros shows juntos?

Penso sim. Só que mais para frente porque tem muita coisa, todo mundo mora muito longe. É que nem namorar a distância: tem que juntar dinheiro para se ver.

Extra Online