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Desaceleração da economia pode adiar abertura comercial, diz ex-secretário

O secretário-adjunto não integrará nova equipe econômica, que será comandada por Paulo GuedesArquivo/Ministério do Planejamento

As perspectivas de desacelaração no crescimento da economia das principais potências mundiais pode atrasar o processo de abertura comercial no Brasil. Essa é a avaliação do ex-secretário-adjunto de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, Renato Baumann, 68 anos.

Em entrevista ao Poder360, Baumann, que esteve na secretaria durante o governo de Michel Temer, avaliou que o enfraquecimento da atividade econômica global causará uma retração da demanda, o que poderá afetar as exportações brasileiras.

“O discurso da nova administração é mais proativo, no sentido de que vai abrir. Vamos ver a economia política se manifestar no dia a dia. Este ano teve muito embate nesse sentido, muitas tentativas de fazer alguma coisa e na última hora vir uma puxada de tapete”, afirmou.

Para o secretário, uma eventual aproximação comercial com os Estados Unidos não deve resultar em 1 detrimento das relações do Brasil com outros países, como a China, principal destino dos produtos brasileiros.

“Não dá para chutar ou falar mal da China e se voltar totalmente aos EUA. Vamos fazer o que? Vender soja para os americanos, sendo que eles são nossos principais competidores no mercado? Espero que essas coisas sejam mais discurso de campanha”, afirmou.

Baumann também afirma que a saída do Mercosul “tem 1 custo muito mais alto que o imaginado”. O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a afirmar que o bloco comercial “não é prioridade” da nova gestão.

“Em situações de crise, a complementaridade produtiva ao nível regional pode ser uma grande fonte de dinamismo. É 1 caminho natural buscarmos no quintal a complementaridade que possa nos dar competitividade”, afirmou.

Eis a íntegra da entrevista:

Poder360: As projeções de PIB apontam para uma desaceleração da atividade econômica mundial. Ao que se deve essa perspectiva?
Renato Baumann: Espera-se 1 crescimento mundial médio de 3,7% para 2018-2019. Boa parte desse percentual tem a ver com o dinamismo da economia dos Estados Unidos, que respondeu de forma positiva aos estímulos fiscais do governo de Donald Trump. O efeito positivo dessa política fiscal deve morrer a partir de 2020. Portanto, isso explicaria uma redução no crescimento a partir de meados de 2019.

Também temos o impacto, ainda não muito claro em termos de valores absolutos, da guerra comercial entre China e Estados Unidos. A imposição de tarifas parte a parte já causa a redução de fluxo de comércio. O menor dinamismo da China, por sua vez, tem 1 impacto regional importante, por conta da produção chinesa ser em cadeia de valor com os países vizinhos. Alguns países do sudeste asiático têm se ressentido. Mas estamos falando da 2ª economia do planeta, que ainda deve crescer na faixa dos 6,5% ao ano, que é 1 volume grande.

Além disso, há uma situação considerada próxima do pleno emprego nos EUA. Com desemprego na faixa dos 4%, supõe-se que as pessoas que querem trabalhar encontram oportunidades. Nesse ambiente, tem a pressão inflacionária, pois uma taxa de juros mais alta esfria 1 pouco a economia americana, o que reflete no mundo inteiro e estimula a migração de capital do resto do mundo para os EUA, o que afeta, sobretudo, os emergentes. Boa parte das economias em desenvolvimento tem problemas de balanço de pagamento e a necessidade de dólar.

Como está a Europa nesse contexto?
Tem apresentado uma taxa de crescimento positiva, mas mediocremente baixa. Desde a crise de 2008, a economia está andando meio de lado. Tem 1 conjunto de problemas que envolvem algumas economias importantes, como no caso do Reino Unido. A perspectiva da saída do Brexit já motivou a saída de muitas empresas do continente.

Além disso, o envelhecimento da população implica em uma menor poupança, custo social mais alto por conta da Previdência e gastos com saúde, que tem 1 efeito daninho sobre o desempenho econômico.

Outra coisa é a distância entre trabalhadores altamente qualificados e trabalhadores com pouca qualificação, com atividades mais repetitivas. Isso aumenta a distância entre países em desenvolvimento e desenvolvidos.

Brasil, Índia e Rússia, que integram o BRICS, tem perspectiva de crescimento. Como se equilibrar nesse cenário?
A Índia é o mais notável, tem crescido mais que a China. Brasil, Rússia e África do Sul estão se recuperando de uma “tragédia grega”. Estamos crescendo cerca de 1,5% e não voltamos ao nível de produção de 2010. Entre os emergentes, a Argentina e a Turquia estão na rabeira.

São 40 e tantas economias de emergentes que têm desempenhos abaixo dos industrializados. Isso faz com que tenha uma situação, de fato, em que a distância em termo de renda per capita, que é o indicador básico de desenvolvimento, se amplie, o que dificulta superar essa diferença.

A desaceleração das economias globais pode impactar a continuidade da retomada da economia brasileira?
Sim, sempre que tem uma redução do dinamismo mundial todos perdem. Inevitavelmente, tem menos demanda, o que afeta as exportações. O Brasil tem uma participação de menos de 2% do comércio internacional. Ou seja, tem cerca de 99% do mercado para explorar, mas tem que fazer o dever de casa. Todo nosso mérito de balança comercial é de soja e minério de ferro para a China, a grande estrela, mas é preciso arrumar a casa.

No sentido de abertura comercial?
Na década de 70 costumava dizer uma coisa que continua sendo verdade: o Brasil não vende, se deixa comprar. Há uma enorme passividade do empresário brasileiro. Por exemplo, foi muito difícil conseguir empresas brasileiras para ir à última feira de Xangai. Estamos falando da feira na qual a China quer se mostrar como importadora, a 2ª economia do planeta, 1 mercado monstruoso e as empresas resistiram fortemente por 1 bom tempo a comprarem estandes.

Com a queda a demanda mundial, esse receio pode ser usado como argumento para adiar a abertura comercial?
É 1 dos argumentos. No caso do Brasil, a negociação com a União Europeia, adiou o debate, no mínimo, 3 vezes. Tem argumentos em relação a falta de mudanças na carga tributária e na falta de infraestrutura.

Esse cenário pode contribuir para uma maior pressão contra a abertura a comercial?
Até aqui, é o que se tem visto. O discurso da nova administração é mais proativo, no sentido de que vai abrir. Vamos ver a economia política se manifesta no dia a dia. Este ano teve muito embate nesse sentido, muitas tentativas de fazer alguma coisa e na última hora vir uma puxada de tapete, manifestações de setores importantes e não se conseguiu. E se tratava de abertura pontual, localizada, só para bens de capital, informática e telecomunicações.

É possível fazer alguma previsão do que efetivamente pode ser feito em relação a abertura comercial no próximo governo?
Essa nova equipe fala muitas frases de impacto, mas não detalha. Toda vida vai começar em janeiro.

Você tem 1 outro impacto comercial que é através do questionamento das instituições. É necessário que a defesa da OMC seja feita de forma efetiva. Se não tiver 1 órgão para colocar ordem, vira uma relação bilateral de força e o mundo volta aos conflitos potenciais do início do século passado, o que ninguém quer.

Essa parte é preocupante num momento de desaceleração. Em situações de retração da demanda a tendência natural é aumentar o protecionismo. Se aumenta o protecionismo e não tem alguém para limitar atuações, temos 1 problema.

Essa aproximação com os EUA é importante, não só por ser a maior economia do planeta, mas pelo fato de que a relação bilateral comercial com os norte-americanos caiu muito ao longo do tempo. Hoje, os EUA são nosso 2º maior mercado, o que representa em torno de 16% das nossas exportações. Mas, estão bem abaixo da China.

O que não faz sentido é que isso ocorra 1 detrimento em outras relações. O Brasil sempre se caracterizou por ser 1 global trader, o que é 1 ativo valioso que não devemos desperdiçar. Não dá para chutar ou falar mal da China e se voltar totalmente aos EUA. Vamos fazer o que? Vender soja para os americanos, sendo que eles são nossos principais competidores no mercado? Espero que essas coisas sejam mais discurso de campanha, do que a prática de gestão depois que as pessoas sentam na cadeira e tem a caneta na mão. Mas vamos ver. É o teste para ver se Deus é mesmo brasileiro.

E para a economia brasileira de modo geral, a redução no dinamismo mundial pode afetar?
Muito provavelmente. Talvez mais os Brics do que o Mercosul. Na década de 80, os países da América Latina andaram de lado por conta das duas crises do petróleo e a crise da dívida em 82. Ninguém tinha dólar para fazer nada. Se redescobriu a integração regional, que estava morta há 20 anos e foi fundamental para a recuperação econômica.

Em situações de crise, a complementaridade produtiva ao nível regional pode ser uma grande fonte de dinamismo, como tem sido no sudeste asiático, em favor da China e outras economias.

É 1 caminho natural buscarmos no quintal a complementaridade que possa nos dar competitividade. Acho que é 1 risco bastante pronunciado na postura ideologizada, simplesmente para ser uma resposta a ideologia adotada até aqui. A virtude sempre está no meio termo.

O chanceler do próximo governo é crítico do chamado “globalismo”. Nesse contexto, é mais apropriado avançar nos acordos bilaterais ou manter uma agenda de acordos regionais? 
O custo político econômico de sair do Mercosul e do Brics é muito mais alto do o imaginado. Temos investimentos consolidados. No caso do Mercosul, é 1 mercado muito importante para as empresas brasileiras de menor porte, elas basicamente importam para a América Latina. No caso dos Brics, é 1 grupo que foi criado intencionalmente para influenciar a governança global, portanto, questionar a supremacia americana. Mas, ali você tem economias que são candidatas naturais a uma interação mais forte com a economia brasileira porque são próximas e entre elas, está a 2ª maior economia do planeta.

Independente da orientação dos Brics, eu custo a crer que não haja oportunidades significativas a serem exploradas. É uma questão de ter uma pró-atividade maior dentro do grupo e não chutar o balde.

E em relação a esta postura mais próxima ao que vem sendo aplicado por Trump?
Trump é Trump, Estados Unidos é Estados Unidos. Que presidente dos Estados Unidos queira ter uma posição de força com relação a China é uma história. Agora, é outra coisa o tupiniquim aqui querer ter uma relação de força com o principal mercado para nossas exportações e principal investidor em infraestrutura nos últimos anos.

A China não se apresenta como a 2ª economia global. Talvez agora 1 pouco com alguns discursos de Xi Jinping. A China se apresenta, de uma forma disfarçada, como o emergente mais bem sucedido.

Ainda tem muitos pobres, carência de infraestrutura em várias regiões e problemas de poluição. Isso leva a uma postura no cenário internacional que é muito mais próxima da postura que, tradicionalmente, a diplomacia brasileira defendeu.

Tem o lado dissimulado da China, que é o investimento que vem como sendo de outros países. Mas, são empresas estatais.

Um relatório recente do BC (íntegra) que fala que eles demonstra que, no fim, o dinheiro chinês acaba aqui mas passa antes por outros países.
Em 2017, a China foi o maior investidor, de longe, em infraestrutura.É 1 grande investidor, com bolso profundo. Eles já fizeram reiteradas as manifestações de interesse de investir no Brasil em infraestrutura, no momento em que o governo divulgar editais para a infraestrutura, como ferrovias, aeroportos, rodovias e portos. Me parece nonsense chutar a canela de quem pode vir e manifestou interesse de investir.

Mas ideologia é ideologia, a gente nunca pode e nunca sabe como começa e muito menos como termina.

Poder360