Dilma Domar a inflação, organizar as contas públicas e retomar o crescimento sem prejudicar as conquistas sociais

Dilma inicia 2º mandato com a missão de reorganizar a economia e controlar crise na Petrobras

dilma desafios 2015BRASÍLIA – “Não permitiremos, sob nenhuma hipótese, que essa praga (inflação) volte a corroer nosso tecido econômico e a castigar as famílias mais pobres”. Essa frase fez parte do discurso de posse da presidente Dilma Rousseff em 2011, mas poderia ser repetida por ela hoje, ao dar início a seu segundo mandato. Domar a inflação, organizar as contas públicas e retomar o crescimento sem prejudicar as conquistas sociais estão entre os principais desafios da petista para os próximos quatro anos. Há duas semanas, ela disse que usaria o discurso de posse para detalhar as medidas econômicas.

Não se sabe se Dilma tratará do tema corrupção em seu discurso. Mas o assunto também concentrará as atenções da presidente na largada de seu segundo mandato. Em meio ao escândalo detonado com descoberta de um cartel para fatiar as obras da Petrobras, e a quase certeza de que ele atingirá em breve figuras importantes de sua base no Congresso, a petista terá de se desdobrar para manter a governabilidade. Não por acaso distribuiu ministérios a partidos aliados como nunca, desagradando ao PT.

A posse de Dilma, a partir das 14h40m de hoje, em Brasília, marcará o início do oitavo mandato presidencial desde que foram retomadas as eleições livres no país. Ao seu fim, o PT terá permanecido 16 anos à frente do governo, no qual chegou em 2002, com Luiz Inácio Lula da Silva. Após as eleições mais acirradas da história brasileira, o PT pretende levar 50 mil pessoas para a Esplanada dos Ministérios, como uma demonstração de força.

ESCOLHA DE LEVY CONTRARIOU PARTE DO PT

Para a ira das alas mais à esquerda do PT, Dilma escalou para o comando do Ministério da Fazenda Joaquim Levy, economista de perfil mais liberal. Mais afeito ao modelo econômico defendido pelo candidato do PSDB à Presidência, senador Aécio Neves (MG), — de cuja campanha foi colaborador — Levy é a principal sinalização de que haverá um cavalo de pau na política econômica. Talvez a economia seja a área onde se encaixe melhor o slogan da campanha petista: “Governo novo, ideias novas”.

— O grande desafio da presidente será deixar a nova equipe econômica trabalhar. Como ela é economista, a vontade dela de participar é muito grande — afirmou o cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB).

Além de domar o cenário econômico ruim, o governo terá que se esmerar na articulação política para evitar crises no Congresso que paralisem seu governo. O cenário que se avizinha é de uma oposição mais aguerrida; uma base aliada pouco fiel; a perspectiva real de eleição do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de perfil mais independente, para a presidência da Câmara.

Emparedada pela revelação do esquema na Petrobras, Dilma se comprometeu com a aprovação de projetos de combate à corrupção, como tornar crime a prática de caixa dois e punir agentes públicos que apresentem enriquecimento sem justificativa. Também disse querer negociar com o Judiciário a agilização do julgamento de processos relativos a desvio de dinheiro público.

Ao ser reeleita, Dilma disse estar ciente de que o sentimento de mudança pautou a campanha e prometeu fazer as reformas que o Brasil precisa. Citou especificamente a reforma política, que se arrasta há anos no Congresso.

SEM MAIORIA PARA APROVAR REFORMA POLÍTICA

O modelo de reforma política defendido pelo PT (voto em lista pré-ordenada, financiamento público de campanha, Constituinte exclusiva e a realização de um plebiscito) não tem maioria para ser aprovado. Após o escândalo do mensalão, o PT passou a usar a defesa da reforma política como uma bandeira ética.

Para completar, a relação entre Dilma e o PT promete ser explosiva. O partido queria influir mais a partir de agora, até porque depende do sucesso do governo para se manter no poder a partir de 2018. Mas Dilma escanteou o grupo do ex-presidente Lula e a corrente majoritária do partido na montagem de sua nova equipe.

Apesar de ter prometido não cortar direitos trabalhistas, “nem que a vaca tussa”, a redução de gastos do segundo mandato começou com restrições no acesso ao seguro-desemprego, abono salarial (PIS) e auxílio-doença. Se, por um lado, 2015 deve ser de corte de gastos, Dilma traçou metas ambiciosas para programas que foram a vitrine do primeiro mandato, como oferecer mais 12 milhões de vagas no Pronatec, de ensino profissionalizante, e construir 3 milhões de unidades no Minha Casa Minha Vida.

 

O Globo