João Pessoa 16/02/2019

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‘Em nenhum momento julguei a senhora’, diz inocente preso para mãe que perdeu o filho

Leonardo Nascimento ficou preso uma semana ao ser confundido com verdadeiro atirador que tirou a vida de Matheus Lessa em mercadinho da família em Guaratiba. "Deus não é injusto e não ia deixar nenhuma injustiça ser cumprida", disse mãe de Matheus

 Mãe de Matheus Lessa, que foi morto ao defendê-la, e Leonardo Nascimento, preso injustamente pelo crime, se emocionaram em encontro – Reprodução TV Globo

Rio – Muita emoção marcou o encontro entre Leonardo Nascimento e a mãe de Matheus Lessa, morto por um ladrão quando a defendia no mercadinho da família, em Guaratiba, na Zona Oeste. Leo, como é conhecido pelos amigos, ficou preso injustamente por uma semana pelo crime após ser apontado por testemunhas, entre elas a mãe da vítima. Emocionados, eles se abraçaram na Delegacia de Homicídios, onde a ficha criminal do DJ foi limpa após provada sua inocência. Ele deu uma entrevista ao Fantástico deste domingo.

“A senhora é a mãe do Matheus? Senhora, prazer, Leonardo. Eu sinto muito pela perda do seu filho, tá bom? Mas eu espero que a senhora continue firme. A perda de um filho querido é muito grande, entendeu? Em nenhum momento eu julguei a senhora por ter me apontado de alguma forma, entendeu?”, afirmou Leonardo, chorando muito.

Abraçada a Leonardo, a mãe de Matheus Lessa, que morreu quando a defendia no mercado, também se emocionou no encontro. “Eu sempre pedi a Deus que fizesse justiça, né? E Deus não é injusto e não ia deixar nenhuma injustiça ser cumprida”, falou para o DJ.

Na entrevista, Leonardo se emocionou várias vezes ao falar sobre ter sido apontado como o culpado pelo crime. “Estava muito abalada, ela perdeu um filho, não é fácil para ninguém. (…) Não tenho mágoa de ninguém, não quero justiça, só quero ficar com a minha família e meus amigos, pois quando mais precisei eles ficaram do meu lado”, disse, chorando muito.

Leonardo chorou e se emocionou várias vezes ao falar da prisão injusta e dos momentos na cadeia – Adriano Araujo Alves de Souza

Ele também contou do dia em que o levaram para delegacia. Mesmo sem saber o que estava acontecendo, sabia que tudo ia “acabar bem”, pois não tinha cometido nenhum crime. “Me algemaram, me colocaram dentro do carro, meus amigos todos no portão, meu pai. E eu sem poder explicar para o meu pai o que estava acontecendo, meu pai vendo, não sabia do que estavam me acusando. Mas estava tranquilo, sabendo que não fui, falei: ‘poxa, vou chegar lá, vou fazer o procedimento que tem que fazer e vou ser liberado’. Quando olhei para o lado, tinha um moreninho, dois branquinhos, e aí chamaram as mulheres para fazer o reconhecimento”, relatou.

O delegado Evaristo Pontes alegou que a presença de dois brancos no reconhecimento era porque havia um entre os suspeitos de participar do crime. “Nós tínhamos um suspeito branco. As testemunhas descreviam as caraterísticas de um suspeito de cor branca”. Ele seria o que lutou com a mãe de Matheus, enquanto o negro, o atirador que matou Matheus.

Na mesma reportagem, o professor Thiago Bottino, professor de direito da Fundação Getúlio Vargas, criticou a forma como Leonardo foi reconhecido. “Cada suspeito tem que ser identificado individualmente. Se eu tenho cinco suspeitos e coloco os cinco suspeitos naquela linha, você acaba induzindo a vítima ou a testemunha a exonerar um provável culpado”, falou.

O Dia