Entenda por que a Noruega é o país mais feliz do mundo

Para um país ser feliz é preciso que várias áreas se integrem com harmonia, como saúde, educação, cultura, finanças e esporte. Alimentadas por um sistema justo e transparente.As pessoas, com isso, crescem assimilando esse modo de vida em seus organismos, em seus hábitos e em suas almas. E se souberem manter em suas mentes esse equilíbrio, conseguem fazer de onde moram um local feliz.

Na Noruega, eu sei que é assim desde os anos 80, pelo menos. Não precisei me basear em estatística, como a que mostra a alta renda per capita; o ensino subsidiado; a saúde gratuita; a renovação permanente das empresas; a distribuição das riquezas do petróleo, que chegam a mais de 70 bilhões de dólares por ano, por meio de um fundo soberano.

Entendi esses números de maneira mais simples. Em instantes, assim que tive contato com a banda norueguesa A-ha, nome que vem de um suspiro de agradável surpresa. Todas essas sensações de harmonia e esperança, que deviam refletir como era o jovem norueguês de então, percebi na primeira música que ouvi do trio.

A voz suave e metálica de Morten Harket nos dava a impressão de ser a voz da felicidade. Magne Furuholmen, o tecladista, e Påul Waaktaar, guitarrista, também faziam um som intenso e ao mesmo tempo melódico, cheios de efeitos encantadores.

Ouvi Take on Me quando estava em Israel e até hoje as imagens de minha viagem e de minha adolescência são embaladas em suas estrofes e em suas encruzilhadas supreendentes.

Mas Dark is the night também foi marcante. Remete, para mim, a um tempo em que conheci uma mulher mais velha e alimentei um amor platônico, nos meus vinte e poucos anos. Ela se chamava Lígia, tinha cabelos castanhos, pele bronzeada e morava em uma rua arborizada de Higienópolis.

A música era tema da novela O Mapa da Mina. Voltei a ouvi-la outro dia, por acaso em um velho CD, no carro. E aquele período me veio à tona. O mais mágico, é que se juntou ao cenário de hoje. A mesma sensação de interação que me vinha quando deixava minha amiga em casa, retornou amadurecida.

Foi estranho notar que, no mostrador, aparece apenas o número da música, sem a identificação, porque o CD de então não propicia a leitura do nome no aparelho de hoje.

Se na época eu via aqueles números digitais como algo insuperavelmente moderno, hoje  percebo um toque de ingenuidade nesse meu pensamento. Na própria noção de progresso que, em alguns momentos, se apresenta para nós como se fosse o ápice.

Ouço a música sempre que volto pela 23 de maio e paro o carro em um posto de gasolina, de onde aprecio os prédios antigos do centro, como se fossem montanhas cheias de vaga-lumes, embaladas por ondas do mar, representadas pelo barulho dos carros. E brinco com minhas sensações, transferindo-as de outrora para hoje, misturando-as com aqueles longínquos anos 90.

Onde estará Lígia, filha de um famoso político de Jaú? Até que ponto me transformei no homem que sonhava ser naquelas noites escuras? Faço a transição e comparo as duas fases, aglutinando em minha visão as pessoas que conheço hoje, meus amigos, minha esposa, meus filhos. Elas são o ponto de ligação de tudo, aquilo que dá graça à beleza de ver os prédios e compará-los com montanhas silenciosas da noite.

Volto ao mar da 23 de maio, acompanhado das imagens, de ontem e hoje, deixando o velho centro, daquelas luminárias com pontas encurvadas, típicas dos anos 20, e passando pelo entorno de outros bairros como a Bela Vista.

No rastro de Dark is the night, vou seguindo a minha busca, lembrando-me de um escritor norueguês, Jostein Gaarder, e sua doce defesa da essência humana, do diálogo entre as pessoas, em seus livros O Mundo de Sofia e O Dia do Curinga (que também procura uma supresa em cada brecha da vida).

Compreensivas, maduras, as obras também têm a alma da Noruega. Mostram como é feita a educação lá, valorizando um aprendizado mais profundo do que a simples decoreba aparente.

E, apesar de toda a formação diferente do país, chego à conclusão de que, no Brasil e em outros países menos desenvolvidos, seria possível alcançarmos essa visão de mundo mais serena, sem se perder nessa espiral de loucura, encontrando enfim um sistema eficaz, com nossas características.

Somos todos humanos, afinal. E os noruegueses souberam encontrar soluções sensatas e delicadas, mesmo sendo descendentes dos temíveis vikings – guerreiros e saqueadores embrutecidos de séculos atrás.

Em vários momentos felizes de minha vida de brasileiro, o toque da Noruega foi determinante. Não é por acaso. Desde 2001, o país escandinavo ocupa o primeiro lugar do IDH e foi considerado a nação mais feliz do mundo em 2017, em lista da Organização das Nações Unidas.

Admirei a Noruega até quando sua seleção, com Tore Andre Flo e Ole Gunnar Solsjkjaer, venceu o Brasil na Copa do Mundo de 1998. É a única seleção que supera a brasileira no confronto direto. O Brasil, aliás, nunca venceu a Noruega. Não é algo simbólico?

Desde antes daqueles anos 90 estou na expectativa de que o gigante adormecido acorde. Mas nosso país precisa, antes de tudo, estar plenamente feliz, estágio que ainda não alcançou. Ou melhor, não descobriu de verdade.

Por isso, ao som de A-ha (o da surpresa agradável), na confluência de minhas lembranças, na magia da praia da 23 de maio, desejo a todos os brasileiros que, em 2018, pelo menos esse caminho de descoberta seja iniciado. Até encontrarmos o mapa da mina. Feliz ano novo, então, em norueguês. Pelo menos por enquanto.

R7.com