João Pessoa 18/04/2019

Início » Esporte » Entrevista exclusiva com Serginho: o choro da família e um grito contra o racismo no futebol

Entrevista exclusiva com Serginho: o choro da família e um grito contra o racismo no futebol

O meia brasileiro Serginho, destaque nos últimos anos no futebol boliviano, foi manchete não só na Bolívia, mas também em outros países nesta semana por uma decisão difícil: ao ouvir insultos racistas da torcida adversária, no caso o Blooming, o atleta do Jorge Wilstermann abandonou o gramado durante a partida.  A ação de Serginho revoltou a diretoria do Blooming.

O presidente do clube chegou a pedir punição para o brasileiro, que teria provocado os torcedores. A reportagem de oGol ouviu Serginho,  em entrevista exclusiva, e o atleta negou o fato.  “A gente fica até um pouco surpreso. O cara querer justificar algo que não tem justificativa. Porém o jogo foi revisado inúmeras vezes por todo nosso departamento jurídico, treinador, todo mundo e todo mundo viu que, em nenhum momento, eu fiz nada.

Não tem nenhuma imagem, não tem nada que possa provar aquilo que ele está falando. É desespero deles, porque eles sabem que ganhou uma proporção muito grande. Era muito mais honroso e digno se eles se retratassem e pedir desculpas e entendessem que aquilo não era certo. Porém, cada um escolhe o caminho que quer seguir. Mas temos a tranquilidade e certeza que a justiça vai ser feita”, disse o atleta.  A saída de campo foi um grito do meia contra o racismo no futebol.

Serginho revelou, também, que não foi a primeira vez que sofreu com atos racistas no país. “Há um ano atrás, foi a primeira vez, nesse mesmo estádio, contra essa mesma equipe (o Blooming), contra o mesmo treinador”, denunciou. “A gente eliminou eles nas quartas de finais, ganhamos as duas partidas. O treinador não sabia como fazer para dar ânimo para a equipe deles e começou a me ofender, começou a falar coisas que ficou tudo muito feio. Depois, dei uma entrevista falando sobre tudo o que ele tinha falado, do modo racista que ele me tratou dentro do jogo.

Depois disso, toda vez que ia jogar em Santa Cruz, acontecia isso”, descreveu o atleta, que contou outros casos. “Teve um episódio com um jogador dentro do campo, que me chamou de macaco na minha cara. Todos os jogadores viram, o árbitro. Os jogadores do meu time foram tirar satisfação. Mas eles falam o que querem e depois vêm na imprensa e mentem.

Meus companheiros de clube desmentiram, mas agora voltou novamente. Semana passada também tive problema em Oruro quando fui substituído. Estava saindo do campo e começaram a imitar som de macaco, contra o San José. E esse jogo (último) foi o mais difícil. Desde o aquecimento, a cada toque na bola meu na partida eles imitavam som de macaco, me chamavam de macaco, todo mundo ouvia… Foi nítido na transmissão da TV e tudo. Coisas que não cabem mais no futebol”.  Não cabem mas, infelizmente, ainda acontecem.

A família do jogador, inclusive, o pediu para deixar o país. O filho de Serginho, que tem o desejo de ser um jogador, quase desistiu do sonho. Mas Serginho não deixará, de momento, a Bolívia. “Não penso em deixar o país. Meus filhos não querem mais ficar no país, e minha esposa. Tenho um filho de 11 anos e uma filha de dez. Eles já entendem, sabem o que aconteceu.

Eles estavam assistindo o jogo na TV. Minha esposa me ligou dizendo que meu filho só chorava. Ele tem o sonho de ser jogador e ele perguntava se o que estava acontecendo com o pai dele ia acontecer com ele também. Se fosse da mesma maneira, ele não queria mais ser jogador”, contou. Serginho conquistou idolatria da torcida do Jorge Wilstermann.

No clube desde 2016, já soma 20 gols em 68 jogos. Veste a camisa 10 e guarda com carinho grandes partidas contra brasileiros na Libertadores, entre elas uma contra o Vasco, quando deu quatro assistências no mesmo jogo, ano passado. Os bons momentos dão força para Serginho seguir.  “Isso mexe muito com a gente, mas a gente conversou e mostrei para eles que nem todo mundo é assim. Por ora, a gente vai ficar aqui. Gosto muito do clube, que está me dando apoio em todos os sentidos. Não é isso que vai fazer eu voltar ao Brasil agora, não”.

O Gol