Com os olhares vidrados no céu de Copacabana, mais de dois milhões de pessoas

Espetáculo pirotécnico encanta Copacabana e lembra os 450 anos da cidade

ceu de copacabanaFogos colorem o céu na Praia de Copacabana

RIO – Com os olhares vidrados no céu de Copacabana, mais de dois milhões de pessoas presenciaram, na passagem de ontem para hoje, um momento especial e único para o Rio. Segundos antes da virada, a imagem do número 450, que apareceu em duas queimas de fogos, remetia ao 2015 que marca o aniversário de fundação da cidade. Mas o novo ano também será de renascimento, de um Rio que se enche de esperança na reta final da preparação para sediar o maior evento esportivo do mundo: as Olimpíadas de 2016. Num adeus mais do que especial a 2014, o Papa Francisco apareceu por um minuto nos telões espalhados pelos três palcos da orla: “Querido povo brasileiro. É com grande alegria que me dirijo a vocês às vésperas do ano novo, que marcará o início das comemorações dos 450 anos de fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, para saudar, numa circunstância tão feliz, o amado povo carioca”, disse o Pontífice.

INCÊNDIO SEM VÍTIMAS

Apesar da grande festa, houve um momento de apreensão: uma das balsas usadas na queima de fogos, localizada na altura do palco principal, pegou fogo pouco antes do fim do espetáculo. O incêndio só foi contido pouco antes de meia-noite e meia, com a intervenção de embarcações que lançaram jatos d’água. De acordo com o Corpo de Bombeiros, não houve vítimas. Apesar de o acionamento ter sido feito por controle remoto, havia quatro pessoas a bordo, que se refugiaram num contêiner, chamado de célula de segurança, até serem resgatadas por barcos que estavam a postos. Durante a madrugada, elas passaram por avaliação médica, e ficou constatado que não sofreram intoxicação devido à fumaça. O uso de balsas no réveillon foi adotado no Rio após um acidente, na passagem de 2000 para 2001, ter provocado a morte de uma pessoa, deixando 49 feridas. Na época, os fogos eram disparados da areia.

Fogos lembram o aniversário de 450 anos do Rio em 2015 – Pablo Jacob / Agência O Globo

O show pirotécnico em Copacabana contou ao todo com 34 mil bombas espalhadas por 11 balsas, 31% a mais do que as 26 mil da virada de 2013 para 2014, apesar de o tempo do espetáculo ter sido o mesmo: 16 minutos. A queima de fogos teve o acompanhamento de uma trilha sonora feita especialmente para o evento, misturando canções de MPB remixadas com músicas de orquestra, sempre relacionadas com a cidade, como “Aquele abraço”, de Gilberto Gil, e “Do Leme ao Pontal”, eternizada na voz de Tim Maia. Os efeitos de cascata foram os que mais chamaram a atenção, arrancando aplausos do público. A festa reuniu cariocas e turistas dos quatro cantos do Brasil e do mundo. Um deles foi o pequeno Davy, de apenas 5 meses. Ele assistiu a tudo no colo da mãe, a empresaria Keli Cristina Favani, de Birigui, no interior de São Paulo, que estendeu uma canga sob uma das árvores em frente ao Copacabana Palace para garantir seu espaço.

— É uma festa democrática, que acolhe pessoas de todas as idades. Estamos nos divertindo, e de camarote! — brincou ela.

Apesar do forte calor, o público começou a lotar a orla ainda com a luz do dia. A partir das 18h, começaram os shows nos palcos montados ao longo da orla, com bandas como Titãs e Detonautas. A partir das 22h, o movimento de chegada pelo metrô foi grande. Para aguentar horas e horas na areia, não foram raros os casos de quem até levou malas para Copacabana, como os recém-casados Fabiano Lima, de 31 anos, e a mulher Adriana Silva, de 36, que se encontraram à noite com o resto da família já acampada no Posto 3 de Copacabana.

— Nós nos casamos no dia 21. Ela fez aniversário no dia 29. Brincamos dizendo que a nossa noite de núpcias vai acontecer hoje — contou Fabiano.

Em volta do palco, uma boa parte do público aderiu à moda dos isoporzinhos. O representante comercial Pitágoras Lima Ribeiro veio de Santos, em São Paulo, com sua família e trouxe uma bolsa térmica com bebidas e sucos, segundo ele para curitr a festa sem sustos. É a segunda vez que ele vem para o Rio curtir o réveillon, mas na última teve que desistir de ver os fogos por causa da forte chuva.

— Este ano, eu disse que viria nem que fosse de barco. Era um sonho trazer meus filhos para o espetáculo que acontece aqui. Agora (por volta das 20h30m) está chuviscando, contratriando a previsão, mas é chuva de sorte, passa rápido — brincou.

José Geraldo, posicionou-se na fila do gargarejo do palco principal com um bolo simbolizando o aniversário de 450 anos do Rio – Fabio Teixeira

Morador de Gardenia Azul, em Jacarepaguá, José Geraldo, de 45 anos, posicionou-se na fila do gargarejo do palco com um bolo simbolizando o aniversário de 450 anos do Rio:

— Vim todo de verde para mostrar aos turistas esse bolo. Vai atrair a paz para esta cidade que, a cada dia, prova que está de braços abertos para todos de bem.

EMOÇÃO AO SOM DE ‘IMAGINE’

A multidão em frente ao palco principal já começou a se emocionar quando, às 23h30m, o jovem Vinícius Gomes, de 15 anos, tocou num piano branco uma versão de “Imagine”, de John Lennon, numa apresentação promovida pelo Unicef para convidar as pessoas a imaginarem um mundo melhor para as crianças em 2015. No telão, foram passadas imagens de Londres e da Cidade do Cabo, que também participaram da mesma ação. A virada foi sem chuva: apenas por volta das 22h30m houve um leve chuvisco, com algumas pessoas tirando capas das bolsas.

Uma verdadeira febre na areia foram as selfies com o fundo privilegiado da orla de Copacabana. Famílias, como a da estudante Paloma Goes, posavam abraçadas em busca do melhor clique para saudar a chegada de 2015

— Estamos aqui há um tempão tentando uma foto que fique ótima para postar! O cenário ajuda bastante, é a selfie numa das festas mais famosas do mundo — disse a estudante, que chegou a Copacabana com os pais, o irmão e a cunhada às 14h.

O esquema de segurança montado pela PM contou com 1.729 policiais, 33% a mais que o número empregado no réveillon passado. Além do aumento de efetivo, o esquema especial de patrulhamento também teve reforço tecnológico: três helicópteros equipados com câmeras de última geração, entre elas as térmicas, capazes de identificar fontes de calor como, por exemplo, o disparo de uma arma de fogo em meio à multidão. Houve alguns tumultos, principalmente próximo ao palco principal: o cantor Seu Jorge, que fez um show logo após a virada, chegou a interromper a apresentação por um minuto por causa de uma briga. Ele seguiu pedindo paz ao público. Houve diversas queixas de furtos, principalmente de celulares. Durante a noite, um menor foi apreendido pela polícia com sete aparelhos.

A volta para casa começou sem problemas no metrô, sem longas filas.
Multidão lota a orla de Copacabana, na altura no palco principal – Marcelo Piu / Agência O Globo

ALÉM DA FESTA, ARRASTÃO, BRIGA E ASSALTOS

Por volta das 21h, um arrastão causou tumulto no palco principal e terminou numa briga envolvendo cerca de 20 pessoas. Houve correria, e o grupo correu para praia com a chegada dos seguranças. Durante a confusão, Helena Regina foi imprensada na grade lateral do palco, quando tentava proteger o filho Gabriel, de 8 anos.

— Só vi quando a multidão veio correndo em nossa direção. Peguei o Gabriel, mas fiquei imprensada na grade. Estou indo embora agora — disse ela.

Menos de uma hora depois, um homem fiocu ferido após se envolver em uma briga nas areias da Praia de Copacabana. Ele saiu do meio da multidão carregado por homens do Corpo de Bombeiros com o rosto coberto de sangue. A confusão tambem foi em frente ao palco principal, e ninguém foi preso.

Pouco antes dos tumultos, um homem precisou sair carregado, após passar mal na frente do palco. Há bastante policiamento ostensivo e, apesar do grande público, ainda não há filas para os banheiros químicos.

Alguns menores de idade foram apreendidos em Copacabana por furtos. Um casal de estrangeiros visivelmente abalado teve sua câmera fotográfica Canon roubada enquanto estava na faixa de areia da praia. Sem querer revelar seus nomes e seu país de origem, eles disseram que a ação do menor foi muito rápida e que, infelizmente, a festa de réveillon para eles acabou. Eles foram encaminhados para a 12ª DP (Copacabana) para fazerem o boletim de ocorrência. A Polícia Militar apreendeu o menor suspeito do crime. Até as 22h, a PM não divulgou o número parcial de ocorrências registradas em Copacabana. Um dos oficiais, porém, comentou que, mais cedo, um garoto foi apreendido com sete aparelhos celulares.

A corretora de imóveis Jéssica de Carvalho veio de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, acompanhada de quatro amigos para Copacabana. No caminho, disse ter visto cambistas vendendo o tíquete para o metrô por R$ 10.

400 MIL PESSOAS NO FLAMENGO

Para quem não quis ficar em Copacabana, uma das opções foi o réveillon na Praia do Flamengo, que, segundo os organizadores, superou as expectativas e reuniu cerca de 400 mil pessoas para acompanhar a queima de fogos, também com 16 minutos de duração. Houve shows como o do cantor Silvinho Blau Blau e de ritmistas das escolas de samba São Clemente e Beija-Flor.

— É claro que a festa em Copacabana é melhor. Mas lá fica muito cheio — argumentou a dona de casa Valéria Lourenço, moradora de Madureira.

PARTICIPAM DA COBERTURA: Alessandro Lo-Bianco, Fábio Teixeira, Gabriela Leal, lLeandra Lima, Leonardo Sodré, Marco Stamm, Rodolfo Mageste e Thalita Pessoa

 

O Globo