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Espírito Santo amarga o título de Estado onde mais mulheres são assassinadas

violencia contra mulherGanhar flores, parabéns, um beijo do esposo e um presentinho da empresa são manifestações comuns na comemoração do Dia da Mulher. Nessa data, são lembradas as conquistas da mulheres tanto no âmbito pessoal quanto profissional. No entanto, nem tudo é motivo de comemoração para as mulheres capixabas. O Espírito Santo é o Estado com maior incidência de homicídios contra a mulher do Brasil e, em pleno 2014, as diferenças salariais ainda são gritantes: elas ganham, em média, 33,7% a menos do que os homens.”Ser mulher nunca foi fácil e ainda não é”, diz Arminda Rodrigues, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicados em 2013, o Espírito Santo é o Estado brasileiro mais violento para mulheres. A taxa de mortes femininas por violência doméstica no Estado foi de 11,24 mortes para cada 100 mil mulheres – mais que o dobro da média nacional (5,82 mortes por 100 mil mulheres) e seis vezes maior que a do Piauí, o Estado com menos registros desse tipo de crime.
de capitão elas ganham as ruas
Perigo dentro de casa
O estudo mostra também que cerca de 40% desses crimes são praticados por parceiros e ex-parceiros das vítimas. “Os homens são machistas, consideram as mulheres objetos pessoais, propriedade privada e nessa relação a mulher corre sempre o risco de sofrer algum tipo de violência”, relata a delegada.
Vitória não é diferente do resto do Brasil. Os companheiros e ex-companheiros das mulheres são os responsáveis por boa parte da violência praticada contra elas. “Muitas vezes o cara que ela escolheu pra ficar com ela, ter filhos, amar e proteger, é quem acaba sendo o agressor”, diz Arminda Rodrigues.Os números do Ipea mostram apenas o lado “visível” da violência contra a mulher – o assassinato – mas essa não é a única forma de violência sofrida por elas. De acordo com Arminda Rodrigues, a maioria dos registros realizados na Delegacia da Mulher são de ameaças. Um crime que, para a delegada, abala mais a vítima do que a própria agressão. “A lei considera a ameaça um crime de menor potencial ofensivo. Mas quem toma um tapa, o roxo some e acabou. Já quem sofre ameaça se sente oprimida o tempo todo, as vezes durante muitos anos”, explica.
A professora e pós-doutora em sociologia política, Maria Beatriz Nader, pesquisa a violência contra a mulher com base nos boletins de ocorrência da Delegacia da Mulher de Vitória. Os dados extraídos desses documentos mostram que a agressão física é o crime mais comum contra a mulher, constando em quase 40% dos BOs analisados, seguido pela ameaça, com 33%.
 Subnotificação
Apenas em 2013 as delegacias da Mulher da Grande Vitória registraram mais de 8 mil ocorrências. O município de Vila Velha foi o que registrou a maior quantidade de BOs: 2882 ocorrências registradas, o equivalente ao número de ocorrências registradas em Vitória e Serra juntos.
A delegada e a pesquisadora concordam que o número, apesar de parecer alto, não reflete a dimensão real do problema. “A violência familiar é subnotificada pois acontece muitas vezes em casa, com pessoas do circulo próximo da vítima”, diz Arminda Rodrigues.
Além do medo da reação do marido e da dependência financeira e afetiva que fazem as mulheres não denunciarem os agressores é a falta de estrutura nas delegacias. “Se ela tiver que ir em uma delegacia que só tem homem, ela nem vai. Homens, mesmo os policiais, são machistas. Eles dizem ‘você apanhou porque você gosta, você é mulher de bandido’. Eles não tem paciência”, conta.
Origem no passadoSegundo a pesquisadora, a origem da violência contra a mulher é histórica e cultural. “A nossa sociedade é formada, em grande parte, por descendentes de imigrantes alemães, italianos, árabes, que são populações patriarcais e tradicionalistas”, analisa Ana Beatriz. Ela diz ainda que, atualmente, nos continuamos a repetir os mesmos comportamentos mesmo que em uma escala menor. “O nível de escolaridade não é a causa do problema, a bebida não é a causa, pobreza não é a causa. A causa é a cultura machista que o tempo todo diz que os homens são superiores a nós e o pior é que muitas mulheres acreditam”, diz.
A professora Maria Beatriz Nader e a delegada Arminda Rodrigues também concordam em outro ponto: a solução para o problema da violência contra mulher está na educação. “Ninguém nasce machista, é um aprendizado. Os pais precisam ensinar aos filhos uma coisa simples, que é o respeito”, enfatiza Arminda. “Eu acredito que vai demorar pelo menos três gerações para a gente ver a mudança. As gerações de hoje vão ensinar as filhas que não é normal ser agredida e isso vai ser passado adiante”, conclui Maria Beatriz.
Diante da dor, uma história de superação
Susana dos Santos Ricardo
Susana é apenas mais um número dessa estatística, mas sua história não deixa de ser chocante. Há quatro anos, a cabeleireira de 50 anos entrava em um carro para uma viagem que poderia não ter mais volta: o marido a espancou quase até a morte, e a abandonou em um matagal de Aracruz.
O companheiro, com quem vivia havia dois anos, nunca apresentara sequer um traço de agressividade. Nenhuma discussão. Comportamento que se repete em várias outras histórias de agressão como a de Susana. O lado obscuro do homem só foi revelado ao primeiro sinal de que o relacionamento estava próximo ao fim, após Susana descobrir que ele era usuário de drogas.
A violência começou de forma quase que “invisível”. Primeiro, palavras mais ríspidas, o desrespeito. Depois, as ameaças. Mas, como tantas outras mulheres já fizeram, ela mantinha a fé de que o ato de agressão nunca pudesse ser concretizada.
“Às duas horas da tarde ele me chamou para entrar no carro, mas eu estava indo para a minha morte naquele momento e não sabia. Tomei um refrigerante com ele, acho que já tinha alguma coisa que me dopasse ou me fizesse dormir”, relembra.
Após esse momento, ela já não se lembra de nada. Ela acordou em uma mata em Barra do Riacho, próximo à Fibria, em Aracruz. Muitas dores pelo corpo, e a visão turva. “Como se já tivesse praticado o homicídio, ele achou que eu já estava morta”, aponta Susana.

Tudo que ela sabia, é que estava perdendo muito sangue, com o corpo muito machucado, dores intensas. Ela precisou ainda caminhar por cerca de seis horas até chegar à guarita da Fibria, onde foi ajudada por uma funcionária, que a levou até o hospital.

O resultado foi traumatismo craniano, fraturas pelo rosto, como o maxilar quebrado, perda parcial da visão, e mãos, quatro anos depois, ainda dormentes. Após receber alta, Susana precisou ficar em um abrigo municipal. Natural da Bahia, mas por 30 anos morando no Espírito Santo, a única ajuda que teve – frisa – foi da irmã, que já faleceu. Amigos e familiares, por medo de também serem vítimas da violência do ex-marido, não quiseram abrigá-la.
“Me considero mais firme do que nunca, pra contar minha história, lutar, marchar em qualquer passeata. Por toda a classe de mulheres. Pra mãe solteira, pra quem é casada, pra quem esteja ‘descasando’. Deixa o casamento acabar, porque não existe ex-homicida, ex-assassino. O homem que está com o instinto guardado para matar a mulher, ele vai fazer. Ele não vai fazer na primeira chance, ou na segunda, mas quando ele promete que vai matar, ele mata”, afirma a cabeleireira, que hoje dá palestras contando sua história e militando pela Secretaria da Mulher.
Três meses após o ocorrido, Susana não se acovardou e voltou a morar na antiga casa do casal, em Nova Almeida, na Serra, junto com os dois filhos, fruto de um primeiro casamento. Sobre o homem que quase lhe tirou a vida, a cabeleireira nunca mais teve notícias. Ele continua foragido. E faz um alento a todas as mulheres.
“Na primeira agressão, tem que denunciar, ir na Delegacia da Mulher, na Secretaria da Mulher, registrar a queixa, não retirar, e não voltar pra ele. Ele vai oferecer pra ela tudo de bom, mostrar uma pessoa que ele não é. Qualquer coisa que ela rejeitar, qualquer posição que ela não aceitar dele, ele vai reagir de forma agressiva. No caso de filhos, ele também pode fazer isso com eles. Ela não pode se agradar com um beijo, com um abraço, com muita educação porque meu companheiro nunca me bateu, nunca mostrou sinais de violência, mas teve tempo suficiente para tramar a minha morte, teve tempo de pegar meu corpo, desovar, e jogar fora”.

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