Estado Islâmico (EI), grupo que ganhou notoriedade por decapitar prisioneiros e por promover execuções em massa.

Estado Islâmico se transforma em um movimento extremista transnacional

O sonho de instituir um califado islâmico no Oriente Médio — o primeiro passo para a consolidação da Umma (“a grande nação muçulmana”) — tem seduzido facções extremistas da Ásia e da África e colocado o terrorismo, mais uma vez, no topo da agenda mundial. Militantes radicais da Nigéria, do Mali, do Egito, da Índia e do Paquistão juraram lealdade aos mujahedine (guerrilheiros) do Estado Islâmico (EI), grupo que ganhou notoriedade por decapitar prisioneiros e por promover execuções em massa.
Em Mombasa, na costa do Quênia, bandeiras do EI foram apreendidas em duas mesquitas. Na Líbia e na Península do Sinai, os jihadistas foram além e declararam a fundação de uma nação obediente a Abu Bakr Al-Baghdadi. Ao menos 15 mil mujahedine de 80 países, 2 mil deles do Ocidente, se uniram ao EI. O retorno às nações de origem é visto como um pesadelo para os governos, que temem atentados.

O francês Jean-Pierre Filiu, especialista em Oriente Médio pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), alerta que o Estado Islâmico já é muito mais perigoso do que a rede terrorista Al-Qaeda em seu auge, pouco antes de 11 de setembro de 2001.

“Osama bin Laden tinha cerca de mil simpatizantes armados. O EI possui 30 vezes mais, a maioria deles com experiência em combate e em treinamento militar. A receita dos atentados de 11 de setembro era de US$ 500 mil. O EI tem US$ 1 bilhão”, afirmou ao Correio, por e-mail. De acordo com ele, se a Al-Qaeda operava no Afeganistão, uma espécie de

“beco sem saída”, os jihadistas de Al-Baghdadi atuam na Síria e no Iraque e ameaçam a Turquia, um dos portões da Europa. “O acréscimo mais perigoso tem sido a recente aliança do Ansar Beit Al-Maqdis (“Os Partidários de Jerusalém”), a principal facção jihadista que opera do Sinai até o Vale do Rio Nilo.

“Uma analogia seria comparar o EI a uma nave-mãe, pois o grupo declarou um califado e atiçou a imaginação de muitos muçulmanos”, observa Magnus Ranstorp, especialista em terrorismo pelo Colégio de Defesa Nacional da Suécia.

“Os outros sistemas de apoio fervilham em direção à nave; são auto-organizados, mas mantêm mesmo foco.” Para o sueco, a facção ganhou características de grupo de terror transnacional.

Ele vê a evolução do EI como a metáfora de um arquipélago jihadista em expansão, no qual existem ilhas em processo de liberação. “São o caso da Líbia e do Sinai.”

O australiano Clive Williams, professor do Centro para Policiamento, Inteligência e Contraterrorismo da Universidade de Macquarie (em Sydney), admite que o Estado Islâmico foi bem-sucedido em desenvolver uma rede de facções afiliadas na maioria dos países muçulmanos e conta com simpatizantes no Ocidente.

No entanto, ele nega que o EI exerça um controle nos moldes do que era aplicado pela Al-Qaeda. “O Estado Islâmico encoraja os simpatizantes a realizarem atentados e depois os reivindica, mas não toma parte na organização dos ataques.

Apesar de ter influência transnacional, trata-se, primariamente, de um grupo do Oriente Médio”, explicou, por e-mail. Ele prevê que a maior parte das operações do EI no Ocidente será encampada pelos chamados “lobos solitários”, mais difíceis de serem detectados pelas agências de inteligência. Nesse sentido, os países que integram a coalizão americana na Síria e no Iraque seriam os mais vulneráveis.

CB