Homem que trabalhava como escravo usa o primeiro salário para comprar carne - :: Paraiba Urgente :: Portal de Notícias

Homem que trabalhava como escravo usa o primeiro salário para comprar carne

Homem que trabalgava escravoMantido por dez anos em condições de escravo contemporâneo, Roberto Oliveira, de 36 anos, é, um mês após a fuga e a libertação, um homem irreconhecível para quem o viu quando acabara de sair do cativeiro, no Beco Isadir, a 15 quilômetros do Centro de São Fidélis, no Norte Fluminense. Barba feita, e as bochechas mais redondas. A vermelhidão dos olhos já não se vê, e o sorriso é fácil. O peso já não deixa tão folgadas as roupas, mas ele se sente mais leve. Para o roceiro, a vida mudou. O trabalho como aprendiz de pedreiro rende R$ 50 por dia. No primeiro, realizou um antigo sonho: comprou um pedaço de carne.

No dia 28 de maio, Roberto no novo local de trabalho, agora pago, em São Fidélis
No dia 28 de maio, Roberto no novo local de trabalho, agora pago, em São Fidélis Foto: Rafael Moraes / Extra
No dia 28 de abril, Roberto voltou à fazenda em que, segundo a polícia, foi mantido como escravo
No dia 28 de abril, Roberto voltou à fazenda em que, segundo a polícia, foi mantido como escravo Foto: Rafael Moraes / Extra

— Não comia tinha dez anos. Agora, faço marmita e trago todo dia — contou, com orgulho, e sem interromper o serviço.

A gagueira aos poucos diminui. Há três semanas, aprendeu a fazer cimento e emassar parede. Em uma construção à beira da estrada principal da cidade, recebe café da manhã, almoço e lanche. Um contraste com as duas refeições de canjica por dia que fazia no Sítio Angelim, de Girão.

— Ele chegou aqui fraco. Todo dia, trazemos almoço para eles (são três operários), e ele vai com vontade ao prato. Me emocionei quando soube que pagaria o primeiro salário do Roberto — contou Antônio José, seu novo patrão.

O ex-canavieiro quer voltar a trabalhar na roça. Mas, agora, só se for de carteira assinada.

— Ele está aprendendo aos poucos. Não sabia nada de obra. Mas diz que bom mesmo é na roça. Vou levar para minha fazenda, com todos os direitos — diz Antônio.

Como aprendiz de pedreiro, Roberto fatura R$ 50 por dia
Como aprendiz de pedreiro, Roberto fatura R$ 50 por dia Foto: Rafael Moraes / Extra

Roberto não tem contato com os antigos companheiros de cativeiro, mas soube que Davi Pereira Ferreira, de 38 anos, reencontrou a mãe e foi morar fora de São Fidélis. Cirlei Rodrigues Moreira, de 41, está com o pai de criação, em uma região de Campos dos Goytacazes, onde tenta reencontrar os filhos. Pai de Davi, Manoel Pereira Ferreira, de 75, foi convencido pela filha a deixar o Beco Isadir, onde vivia depois de se aposentar e continuar rendendo benefícios à família Girão — o cartão da aposentadoria ficava com o capataz.

A liberdade lhes deu novos contornos, mas os tempos de escravidão ainda assombram.

— Às vezes aparecem umas caminhonetes na porta de casa (da irmã, em São Fidélis). Fico com medo de ser ele (Girão) querendo fazer alguma maldade. Ele ameaçava muito a gente — desabafou Roberto, que não perdeu o hábito de falar com a cabeça baixa.

O cômodo sem janelas era o cativeiro de Roberto, Cirlei e Davi: cadeado era fechado por fora
O cômodo sem janelas era o cativeiro de Roberto, Cirlei e Davi: cadeado era fechado por fora Foto: Rafael Moraes / Extra

Os suspeitos, o fazendeiro Paulo Cesar Azevedo Girão, de 58 anos, seu filho, Marcelo Conceição Azevedo Girão, de 32, e Roberto Melo de Araújo, de 38, o capataz, negam as acusações.