Inflação de serviços terá este ano a menor taxa desde 2000 Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/inflacao-de-servicos-tera-este-ano-menor-taxa-desde-2000-21016226#ixzz4aY1RAfWD © 1996 – 2017. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Luciane Prata, gerente do curso de idiomas Yes (à esquerda) negocia mensalidades com clientes, como a funcionária da prefeitura do Rio Luciana de Andrade.

RIO – O último grupo de preços a resistir à crise vai ceder de vez em 2017. Segundo projeção da consultoria Tendências, a inflação de serviços vai fechar o ano no menor patamar dos últimos 17 anos. A consultoria estima que a taxa ficará em 4,2%, forte desaceleração em relação aos 6,48% de 2016, segundo cálculo do Banco Central com base em 34 itens do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Se confirmada a previsão, será o menor número desde 2000, quando ficou em 3,12%.

A resistência da inflação de serviços intrigou economistas durante os dois anos de recessão. Em tese, os preços devem ceder em momentos de atividade econômica fraca, por causa da demanda menor. Mas fatores como o alto custo de salários e o esforço feito pelo brasileiro para não abrir mão de alguns serviços seguraram os preços elevados.

A história começou a mudar no ano passado. A taxa de 6,48% de 2016 já representou uma desaceleração frente a 2015, quando chegou a 8,09%. A nova queda esperada para 2017 completará o ciclo.

— Os preços de serviços são os mais sensíveis ao ciclo econômico. A gente atribui essa baixa à recessão — avalia Marcio Milan, economista da Tendências.

Outros analistas também esperam forte desaceleração para este ano. Raphael Ornellas, economista do banco Brasil Plural, estima que a inflação de serviços fechará 2017 em 4,4%. Julio Mereb, pesquisador do Ibre/FGV, projeta taxa de 4,8%. Já Elson Teles, economista do Itaú Unibanco, espera que o índice fique em 5,2%.

— A gente acredita que essa desinflação vai persistir ao longo de todo o ano — resume Ornellas, do Brasil Plural.

Essa perda de fôlego marcará o fim de uma era em que a inflação de serviços foi considerada vilã dos preços. Desde 2005, o índice do setor — que responde por 35% do IPCA — superou a taxa geral quase todos os anos. A exceção foi em 2015, quando as tarifas de energia elétrica subiram 51%, fazendo o IPCA disparar para 10,67%. Embora também seja um serviço, a conta de luz é contabilizada em outra categoria de preços, a de monitorados.

— Durante muito tempo, os serviços foram o foco da inflação. O IPCA caía, subia, e serviços estavam sempre perto de 8% ou 9%. Foi o grupo mais resistente dessa desaceleração — afirma a pesquisadora do Ipea Maria Andrea Parente.

Ela explica que, mesmo na recessão, alguns preços continuaram a subir porque são mais difíceis de serem substituídos.

— O grupo de segmentos intensivos em mão de obra mais barata foi o primeiro a sentir os efeitos do mercado de trabalho. Além de terem custo menor, são um pouco mais fáceis de se abrir mão. É mais fácil trocar de manicure do que mudar a escola do filho ou substituir um médico de confiança — explica a especialista.

A crise fez o brasileiro rever essas prioridades, na avaliação da economista. Assim, o que era inegociável passou a ser passível de cortes no orçamento. Para não perder clientes, a solução encontrada por muitas empresas foi oferecer descontos mais generosos.

Foi um desses abatimentos que convenceu a servidora pública Luciana de Andrade a manter o filho Enrico, de 11 anos, no curso de inglês — após ter praticamente decidido cancelar a matrícula, devido a três mensalidades atrasadas. As contas fugiram do controle no ano passado, quando ela perdeu a bolsa de estudos de três anos que havia recebido da prefeitura do Rio. No período de rematrícula, achou que não teria negociação, mas foi convidada pela gerência para conversar.

— A intenção era chegar aqui e dizer: “olha, ele não vai continuar porque não tem como” — conta a servidora.

O resultado foi um acordo suficiente para equilibrar as contas. Os juros dos atrasados foram perdoados, e o valor da mensalidade, que seria normalmente de R$ 217, ficou em R$ 115. O material didático também saiu por preço mais camarada: em vez de R$ 450, Luciana pagou R$ 380, parcelados em duas vezes no boleto bancário.

Para Luciane Prata, gerente da unidade que negociou diretamente com Luciana, essa é a melhor saída para enfrentar a crise. Ela conta que criou uma força-tarefa para entrar em contato com alunos do semestre anterior, oferecendo condições especiais para não perder clientes. Com isso, conseguiu renovar 80% dos matriculados no ano passado. E ainda tem esperança de trazer de volta os outros 20%.

— A gente dá todas as opções possíveis, chama, manda carta, dilui as mensalidades para que as pessoas sintam segurança. É o que a gente faz para continuar com o negócio — conta Luciane.

CORTE DE JUROS

Se casos como esses se multiplicarem, a inflação de serviços pode ser a surpresa positiva pela qual o Banco Central espera para pisar de vez no acelerador e cortar mais rapidamente a taxa básica de juros. Há duas semanas, a autoridade monetária cortou em 0,75 ponto percentual a Selic, agora em 12,25% ao ano, e avisou que pode intensificar o ritmo, na ata do Comitê de Política Monetária (Copom).

— É isso que o BC percebe e está tranquilo em sinalizar que pode até intensificar o ritmo de queda. Ele está sinalizando inclusive que podemos ter surpresas inflacionárias adicionais. Se isso acontecer, vai ser captado na inflação de serviços e de alimentos. Os serviços vão ficar bem controlados pelo menos até o terceiro trimestre — afirma Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners, que espera que os juros caiam a 9% ao ano até o fim de 2017.

Julio Mereb, da FGV, destaca que o BC estará confortável porque o movimento na inflação de serviços mostra que a desaceleração dos preços é, finalmente, generalizada:

— Poderia até ficar a dúvida: será que a inflação vai ficar baixa apenas por causa desse grupo (serviços)? Mas não parece ser esse caso. Quando a gente olha uma inflação de serviços desacelerando sistematicamente, dá um certo ânimo, uma folga para o Banco Central, porque ele percebe que o processo não está concentrado apenas em um grupo, mas em outros itens.

A perspectiva dos economistas ouvidos é que esse movimento seja duradouro, principalmente por causa da nova política econômica.

— Parece pouco provável voltarmos a ter inflação de serviços neste patamar, de 8% a 9% nos próximos anos. Condições ainda adversas do mercado de trabalho e do setor imobiliário, assim como a própria redução da inflação e o menor reajuste do salário mínimo (neste ano e no próximo), devem resultar em moderação nos custos com salários e aluguéis e, nesse sentido, contribuir para a queda da inflação dos serviços — afirma Elson Teles, economista do Itaú Unibanco.

O Globo