Iraque enfrenta desafio da reconstrução de Mossul e do retorno de seus habitantes

Cidade de Mossul, no Iraque, foi devastada pelos conflitosREUTERS/ Zohra Bensemra

Após derrotar os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI) em Mossul, as forças iraquianas enfrentam o grande desafio de reconstruir e assegurar o retorno em segurança dos habitantes da segunda maior cidade do país, devastada por quase 9 meses de conflitos.

A zona oeste e o centro histórico foram as áreas que mais sofreram danos, devido aos combates de proximidade, ataques aéreos e atentados suicidas.

Nesta terça-feira (11), as tropas iraquianas vasculhavam uma pequena área da parte antiga, onde ainda poderiam estar escondidos os últimos combatentes do EI, que ocupou a cidade por 3 anos.

Enquanto centenas de milhares de civis se viram presos em razão dos combates, a Anistia Internacional (AI) acusou as forças iraquianas e a coalizão internacional de recorrer a uma força não adaptada nas zonas densamente povoadas.

As organizações humanitárias ressaltam que a grave crise na cidade está longe de terminar. Vários edifícios parcialmente destruídos desabaram, e outras estruturas foram reduzidas a ruínas, incendiadas ou crivadas de buracos.

Mais de US$ 700 milhões

A parte antiga de Mossul é um dos seis setores da zona oeste “quase completamente destruído” na batalha, segundo a ONU.

Outras regiões sofreram menos danos. A ONU estima em mais de US$ 700 milhões o montante inicial para a reabilitação dos serviços básicos, de educação e segurança, e a reconstrução da cidade.

Com esse nível de devastação é muito improvável que as centenas de milhares de famílias deslocadas voltem para casa em um futuro próximo, ressalta Arnaud Quemin, diretor interino do Mercy Corp’s para o Iraque.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados também estima que “milhares de pessoas terão que permanecer deslocadas por meses, uma vez que muitas perderam suas casas”.

Em 9 meses da ofensiva, quase 1 milhão de pessoas fugiram de suas casas, e apenas uma fração conseguiu retornar, principalmente para o leste da cidade.

Além dos desafios de reconstrução e regresso dos deslocados, o governo iraquiano também deve lidar com as causas de anos de violência e insegurança no país.

“Temos de abordar as causas da violência e do conflito em sua raiz, discutindo as violações dos direitos humanos sofridas por todas as comunidades no país durante décadas. É a única maneira de assegurar bases sólidas para uma paz duradoura”, considerou o comissário da ONU para os direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein.

O descontentamento da minoria sunita no Iraque diante da marginalização pelo poder dominado pelos xiitas e as operações realizadas de forma impune pelas forças de segurança nessas regiões contribuíram para o crescimento do grupo extremistas sunita.

Crimes de guerra

Os grupos jihadistas aproveitaram a insegurança e instabilidade política no Iraque após a invasão americana do país em 2003, que levou à queda do ditador Saddam Hussein, um sunita, que havia marginalizado a maioria xiita durante as décadas que permaneceu no poder. Nos últimos anos, os esforços de reconciliação falharam.

Por enquanto, os iraquianos desfrutam de sua vitória, mesmo obtida à custa de milhares de vítimas, civis e militares, de uma enorme crise humanitária e destruição colossal.

De acordo com a Anistia Internacional, a última fase da batalha de Mossul foi lançada e ganhada “a qualquer preço”, com civis pagando um preço elevado.

Segundo essa organização, o EI é culpado de “crimes de guerra” por utilizar civis como “escudos humanos” e “assassinar sumariamente centenas, se não milhares, de homens, mulheres e crianças que tentaram escapar da cidade”.

Por seu lado, “as forças iraquianas e da coalizão não conseguiram adaptar suas táticas para a realidade e utilizaram armas explosivas imprecisas” em áreas civis, aponta a Anistia.

Mossul tinha um grande valor simbólico para o EI: seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, havia feito em julho de 2014 sua única aparição pública após a proclamação de um “califado” nos territórios conquistados no Iraque e na Síria, agora em farrapos.

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), uma ONG com sede na Grã-Bretanha e muitas fontes em toda a Síria, fontes do Estado Islâmico confirmaram nesta terça-feira a morte do líder do grupo extremista.

RFI