João Pessoa soma 2,2 mil assaltos - :: Paraiba Urgente :: Portal de Notícias

João Pessoa soma 2,2 mil assaltos

REVOLVER DOISEram quase cinco horas da tarde. Após pedalar durante horas, o comerciante Roberto Costa Maurício, 46 anos, decidiu descansar um pouco e sentou em um banco da Praça da Independência, no bairro de Tambiá, em João Pessoa. Apesar de ser domingo e de ter pouco movimento na rua, havia um grupo de jovens que conversava no local. Entretido observando os garotos, Roberto não percebeu a aproximação de um assaltante.

“Ele veio por trás e colocou o revólver em cima de mim. Mandou ficar quieto e disse que só queria a bicicleta. Eu ainda pensei em reagir, em gritar, em tentar fazer alguma coisa, mas não consegui. O cara subiu na bicicleta e foi embora. Ninguém viu nada”, lembra o comerciante.

O comerciante ainda procurou a delegacia para registrar queixa, mas não conseguiu recuperar a bicicleta. Depois do susto, resolveu adotar cuidados. “Tenho uma barraca no bairro de Jaguaribe e não fico com ela aberta até altas horas, não. Quando dá seis horas da tarde, eu já ‘tô’ fechando e indo para casa.

Também evito de andar com muito dinheiro no bolso, em ruas esquisitas. Quando a gente é roubado, só quem fica no prejuízo é a gente mesmo”, observa.

Roberto está entre as pessoas assaltadas que sofreram danos com os chamados Crimes Violentos Patrimoniais (CVP). Entre janeiro a abril deste ano, foram registradas 2.266 ocorrências desse tipo em João Pessoa. O número é maior em relação ao total de 1.657 casos contabilizados no mesmo período do ano passado, representando um aumento de 37%. Os dados são do Relatório de Indicadores Criminais no 1º Quadrimestre de 2014 da Secretaria de Segurança e Defesa Social (Seds).

O “rolé dos assaltos” amedronta a população e se espalha pelas ruas: em quatro meses, houve casos em 20 bairros da capital e em 15 de Campina Grande, onde também constatou-se aumento de ocorrências.

Apesar do crescimento, esses números ainda podem não mostrar a realidade. Como muitas vítimas não procuram as delegacias, muitos casos deixam de ser oficializados.

O sociólogo Ariosvaldo Diniz integra o Núcleo de Estudos sobre Violência da Universidade Federal da Paraíba e realiza pesquisas na área há mais de 10 anos. Ele explica que muitas pessoas deixam de procurar a polícia para comunicar crimes patrimoniais por causa da estrutura do sistema de segurança.

“É a morosidade, é a dificuldade e a burocracia para registrar queixa. Mas existe também outro fator que impede o registro das queixas: a falta de confiança nas condições estruturais da polícia de resolver o caso. As delegacias são cheias de Boletins de Ocorrência de casos até mais graves e que não são resolvidos”, afirma.

Para o estudioso, um problema dá origem a outro. Sem registros, as estatísticas ficam subnotificadas e essa falta de dados corretos sobre atos criminosos prejudica a criação de políticas de combate à violência.

“A falta de dados atrapalha, porque turba a discussão geral que deveria ser feita sobre o caso. Como estamos em ano eleitoral, as taxas de criminalidade acabam sendo muito debatidas por gestores. As estatísticas mostram redução em alguns tipos de crimes, mas a sociedade permanece com a sensação de insegurança. Não podemos dizer que a sociedade paraibana não esteja sofrendo com a violência”, acrescenta o sociólogo Ariosvaldo Diniz.

OCORRÊNCIAS EM BAIRROS

Dos bairros existentes em João Pessoa, 20 já apresentaram ocorrências de assaltos entre janeiro a abril deste ano. Roubo a pessoa (1.467), roubo de moto (395), roubo de estabelecimento (161), roubo em transporte coletivo (179), roubo de carro (32), roubo a residência (21) e roubo a veículos (11) foram as ocorrências registradas no primeiro quadrimestre de 2014 em João Pessoa.

EM CAMPINA FORAM 922 REGISTROS

Em Campina Grande, segunda maior cidade da Paraíba, os crimes patrimoniais já foram registrados em 15 bairros entre os meses de janeiro a abril deste ano. Ao todo, foram 922 ocorrências, 3,9% maior em relação aos 887 registros feitos no mesmo período do ano passado.

A maioria dos delitos resultou no roubo de dinheiro, documentos e objetos pessoais. Foram 469 crimes praticados diretamente contra pessoas. Na sequência, apareceram os roubos de motos (202), em estabelecimentos (136), de carros (44), a residências (40) e assaltos a ônibus (28).

ALVO DE BANDIDOS 14 VEZES

É com um sorriso no rosto que Maria (nome fictício) atende os clientes. Ela é balconista de uma farmácia instalada no Bairro dos Estados, em João Pessoa. Apesar da aparência simpática e descontraída, a jovem vivenciou momentos de tensão e nervosismo, quando viu o local de trabalho ser assaltado por 14 vezes no ano passado. Em duas ocasiões, os delitos foram praticados em menos de 12 horas. A última ocorrência foi no dia 17 de outubro do ano passado.

“Graças a Deus, que este ano (2014) ainda não tivemos nenhum assalto. A gente sente medo, claro, mas eu mesmo não fico me prendendo a isso”, disse Maria.

Em outra farmácia, instalada nos Bancários, os assaltos também preocupam. Em menos de 30 horas, um mesmo estabelecimento foi alvo dos bandidos três vezes. A sequência de roubos ocorreu em julho do ano passado. Em todas as ocasiões, os criminosos estavam armados e não usaram de violência para render os funcionários.

O vice-presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas da Paraíba, José Neto Lopes, observa que as empresas são penalizadas duas vezes pela falta de segurança: além do prejuízo quando são vítimas dos bandidos, elas precisam arcar com despesa extra para contratar segurança particular.

“Esse problema é muito maior nas cidades do interior, onde as empresas têm pequeno porte e não têm condição de contratar grandes itens de segurança”, lamenta.

Segundo Neto Lopes, a carga tributária é outro item que pesa sobre as empresas. Ele explica que o governo do Estado cobra uma taxa extra de empresários para gastos com segurança. É o Fundo Especial de Segurança Pública.

“Essa cobrança está prevista em lei. É legal, mas imoral. A empresa é obrigada a pagar um boleto, sem receber a segurança que precisa. Isso só aumenta a despesa do empresário. Como o Estado não dá segurança, a empresa tem que instalar alarmes, câmeras, contratar seguranças, elevando a custos altíssimos a sua despesa mensal”, declara.

Jornal da Paraíba