Kerry comanda cerimônia histórica: ‘Chegou o tempo de sermos vizinhos, e não inimigos’.

cuba- voltaApós um discurso emocionado de Kerry, soldados volta a içar a bandeira, 54 anos depois –

HAVANA/WASHINGTON — Com a bandeira americana tremulando pela primeira vez em Cuba em 54 anos, o secretário de Estado John Kerry comandou em Havana a tão aguardada cerimônia de reabertura da embaixada, símbolo da retomada de relações diplomáticas entre os dois países. Simpático e falando em bom espanhol, Kerry considerou as antigas tensões superadas e pediu que os países “passem a ser vizinhos, e não mais inimigos”, mas pediu também que o país não esqueça os compromissos com os direitos humanos. Na capital cubana, ele tenta afastar temores dos que veem a retomada de relações com cautela e se aproximar do governo cubano e de seus opositores.
— Obrigado por se juntarem a nós neste momento tão histórico, 54 anos depois — declarou Kerry. — Este é um dia que derruba antigas barreiras. Não há nada a temer, já que serão muitos os benefícios quando pudermos ter nossas relações, intercambiar ideias. Os EUA e Cuba não são mais inimigos ou rivais, mas vizinhos. E é hora de o mundo saber disso.

A cerimônia começou com a leitura de um poema pelo poeta cubano-americano Richard Blanco — que inaugurou o segundo mandato de Barack Obama —, apresentado pelo chefe da Seção de Interesses e possível futuro embaixador, Jeffrey DeLaurentiis.

Kerry ressaltou que o momento “invariavelmente relembra” as histórias e as tensões no início dos anos 1960 — mas parabenizou a iniciativa corajosa do governo cubano em sair “das prisões do passado”.
— Uma geração inteira cresceu sob a separação, assim como nos lembramos do Muro de Berlim e do Vietnã. Pudemos superar, através da reconciliação, estes conflitos. O tempo chegou para irmos em uma direção para a frente. O futuro cubano é para ser moldado pelos cubanos.

Também falando em espanhol, Kerry disse que “chegou o tempo de deixarmos de ser inimigos, e passarmos a ser vizinhos” — discurso que estendeu às comunidades às cubano-americanas e à luta pelo fim do embargo econômico.
— A democracia verdadeira e os direitos humanos serão pautas apoiadas de perto pelos EUA diante de Cuba. É algo para ambas as sociedades se beneficiarem. De povo para povo, e de governo para governo. Podemos buscar melhores caminhos, trocando o ódio pela parceria. Chegou a hora de o mundo saber que os dois países querem o bem um do outro — afirmou, antes de anunciar que o turismo e a tecnologia já vêm se beneficiando com o degelo, uma “via de mão dupla” costurada pelos dois países por anos.

Para finalizar o discurso, fez um agradecimento especial.

— Sabemos que será difícil, mas agradecemos o apoio dos presidentes Barack Obama e Raúl Castro por encararem as oposições tão contra a reaproximação, e especialmente ao Santo Padre, que não ingenuamente visitará os dois países no mês que vem.

O secretário de Estado veio acompanhado por uma grande comitiva, que inclui membros que participaram das negociações dos últimos meses, senadores democratas (Patrick Leahy e Amy Klobuchar) e republicanos (Jeff Flake), além de representantes do Congresso e de departamentos econômicos.

Após o emocionado discurso de Kerry, a bandeira foi erguida pelos mesmos agentes da Marinha que a baixaram em 1961.
EQUILÍBRIO

Kerry vai ter que mostrar jogo de cintura. Com uma agenda cuidadosamente organizada, ele precisa equilibrar a aproximação entre os dois Estados como os contatos com dissidentes, que reclamam de não terem sido convidados para a cerimônia de hasteamento da banmdeira. Portanto, Kerry acompanhou o hasteamento com a presença de autoridades do país e decidiu só mais tarde receber vários setores da sociedade cubana em um evento privado na representação.

Em Havana, Kerry não apenas presidiu a solenidade, mas tem encontros com o chanceler Bruno Rodríguez, as lideranças católicas e um grupo de dissidentes — que questionaram sua exclusão do evento oficial. Berta Soler, líder das Damas de Branco, disse que não irá à recepção.
Funcionários da política externa dos EUA disseram que a medida de restringir convidados para a cerimônia serve para manter um espaço “de governo para governo”.

Após os encontros, Kerry volta para casa, mas os diplomatas no local já trabalharão em parcerias econômicas, amparadas por leis que diminuem o efeito do embargo contra Havana.

— Temos relações diplomáticas. Vamos voltar ao trabalho — animou-se Wayne Smith, diplomata aposentado que acompanhou o fechamento da embaixada em 1961.
Já pronta, embaixada americana tem fotos de Obama e Kerry – ADALBERTO ROQUE / AFP
A visita já rendeu críticas do lado republicano. Para um dos principais nomes da oposição, o pré-candidato Jeb Bush, a reabertura “é um presente para Fidel Castro”, além de um “símbolo da conivência do governo Obama com o legado do regime” e violações de direitos humanos”.
Fidel, que criticou EUA em seu aniversário, é fotografado em brinde com amigos e aliados sul-americanos – Estudos Revolución / Reprodução

Um dia antes do evento, o ex-líder cubano celebrou seu 89º aniversário e criticou os EUA, exigindo reparações por conta das décadas de bloqueio econômico ao país.

“É devido a Cuba as indenizações equivalentes por danos no valor de milhões de dólares, como denunciou nosso país com argumentos e dados irrefutáveis ao longo de suas intervenções nas Nações Unidas”, escreveu o líder no artigo intitulado “Realidade e Sonhos”, divulgado nos meios oficiais do país.
Na Casa Branca, Obama conversa por telefone com Raúl Castro na presença de Ben Rhodes e Ricardo Zúñiga Foto: Casa Branca
Conversas secretas

Durante um ano e meio, Barack Obama e Raúl Castro se aproximaram em conversas secretas, debatendo etapas que seriam possíveis para restaurar os laços diplomáticos rompidos no início da década de 1960. No dia anterior ao histórico anúncio do degelo, Obama foi fotografado na Casa Branca conversando ao telefone com o par cubano.