Leticia Spiller:" Eu não me cobro tanto, eu me permito"

Leticia Spiller:” Eu não me cobro tanto, eu me permito”

Todo dia, ao acordar, antes mesmo de tomar o café da manhã, Leticia Spiller pratica os Cinco Ritos Tibetanos, que são uma série de exercícios de ioga, conhecidos como os “rituais da eterna juventude”. Com a fala suave, a atriz, de 45 anos, explica que a prática faz seu metabolismo girar. “São 20 minutos dos ritos com uma pequena meditação”, conta. Apesar de zen, Leticia admite ter seus momentos de fúria, especialmente no trânsito. Mas aprendeu a controlá-los de um jeito divertido. “Me irrito demais, mas dou um soco no console do carro e está tudo resolvido”, entrega, aos risos.

Recém-saída de O Sétimo Guardião, onde deu vida à bonitona Marilda, primeira-dama da fictícia Serro Azul, cidadezinha em que a trama era ambientada, Leticia já está cheia de trabalhos e projetos em andamento. “Tem mil coisas acontecendo”, anuncia ela, que se divide entre sua produtora de cinema, a Paisagem Filmes, e os ensaios para a cigana Inez, uma das protagonistas do musical ZORRO, dirigido por Ulysses Cruz. Baseado na obra de Isabel Allende, o espetáculo estreia dia 2 de agosto no Teatro Santander, em São Paulo.

Além do cinema e do teatro, a atriz ainda colhe os frutos do lançamento de seu livro de poesias, Mais de Mim, lançado ano passado, e comemora o sucesso da música Lua Cheia, que gravou em parceria com o cantor carioca Dienis. “A música já atingiu mais de um milhão de acessos no Spotify e estamos subindo no Youtube também. Estamos com possibilidades de ir para Portugal e para a França para divulgar a canção”, orgulha-se.

Mãe de Pedro, de 22 (de sua relação com o ator Marcello Novaes, de 56) – que está no ar como o Filipe de Malhação: Toda Forma de Amar – e de Stella, de 8 (de seu relacionamento com o diretor de fotografia Lucas Loureiro, de 37), a atriz ainda equilibra o trabalho com a rotina dos filhos e a relação com o guitarrista flamenco Pablo Vares, de 29 anos, por quem se apaixonou durante o espetáculo Dorotéia, em 2016. “A arte dele me encantou, a forma como ele se colocava como profissional e pessoa. Isso antes de conhecê-lo. Depois que o conheci, me apaixonei mais ainda. Ele é um cara que vale a pena, querido, que se importa com os outros, não é um cara que só pensa nele”, derrete-se.

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

O que você está fazendo depois do fim de O Sétimo Guardião?
Tem mil coisas acontecendo. Estou produzindo cinema e, ao que tudo indica, esse ano vai ser lançado um filme do qual sou co-produtora, que se chama Eu Sou Brasileiro. Ele vai ser lançado pela Elo Filmes, que é uma distribuidora de São Paulo só de mulheres. Elas têm um trabalho de contrapartida social muito interessante e vários projetos que valorizam os filmes de médio porte, com orçamentos não tão megalomaníacos. Acho bacana porque incentiva filmes menores, de gente nova e talentosa, tão talentosa quanto as pessoas que estão no mercado há muitos anos.

Há quanto tempo você tem a produtora (Paisagem Filmes)?
Me aventurei no lance do cinema faz muito tempo, sou péssima com datas (risos). Gosto de realizar, de gerar emprego para as pessoas. Porque quando fazemos um filme estamos movimentando geralmente uma cidade inteira porque estamos sempre antenados e preocupados em trazer pessoas para estagiar em todas as áreas, como maquiagem, figurino, cenário, atuação, figuração, já que a gente sempre chama as pessoas locais. Então gera-se um movimento naquela cidade que é muito gratificante em termos culturais.

Você vai atuar em algum filme da sua produtora?
Estamos captando para uma comédia romântica para o grande público, em que eu seria a heroína romântica de um clube de dança. O filme conta a história de um clube bem tradicional no interior, que existe, as personagens foram inspiradas em histórias verídicas. Fora essa comédia ainda tem um thriller do Marcos de Brito, que já ganhou vários prêmios de literatura e escreve roteiro. É um cara cabeça, que adoro. Estou louca para fazer a série baseada no livro dele, À Sombra da Lua, sobre a história do lobisomem. Ainda não sei onde vai ser, mas gostaria muito de fazer a mãe do lobisomem.

Leticia Spiller Aspas (Foto: Ed. Globo)

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

Como você concilia seu dia a dia de trabalho com a rotina de mãe de uma menina de oito anos?
Me dedico muito à rotina da Stella. A minha prioridade é a educação dela. Já estou quase entrando em colapso de saber que vou ter que ficar duas semanas (durante a semana), porque no fim de semana vou voltar, longe dela para ensaiar o musical em São Paulo. Acho de suma importância essa participação na rotina da educação dos nossos filhos, de a gente estar presente. Hoje, por exemplo, não fui fazer minha aula de balé porque quero levá-la na terapia e estar presente na escola. Sempre que posso quero estar junto com ela. Hoje em dia delegamos muito na mão das pessoas. Se eu tivesse uma mãe que pudesse estar mais presente, mas ela não está tão presente por causa da idade (tem 87 anos), ela iria no meu lugar. Quando precisa, peço ajuda para as pessoas que trabalham para mim. Mas, no geral, estou ali, acompanhando, levando e buscando na escola.

Como faz para adequar seus horários aos dela? 
Estou tentando agora me adequar aos horários dela. Outro dia, o cara da academia dela falou para mim: “vem aí e faz o que você quiser”. Porque ela faz natação e jazz lá. Agora estou aproveitando quando ela está na natação para fazer esteira. Pelo menos garanto o meu aeróbico (risos). Quando está mais tranquilo, vou na minha dança que é o que amo fazer.

O Pedro mora com o Marcello?
Ele morou comigo até os 16 anos e agora mora com o Marcello. Na época que ele mudou, ele e o Diogo (filho mais velho de Marcello – que tem 24 anos e também mora com o ator) estavam ensaiando mais com a banda deles (a Banda Fuze), foi bem na época que eles começaram a fazer uns showzinhos, a estar mais juntos, colados. Foi quando ele deixou de ser menino e passou a se tornar um rapaz.

Como você reagiu quando ele foi morar com o pai?
Foi natural. Eu estava com a Stellinha, tinha que dar muita atenção para ela, que ainda era bebê. Eu entendi que ele precisava da presença masculina, precisava do pai naquele momento mais presente. Porque a vida inteira tinha sido o contrário, ele mais comigo. E aí eu acho que naturalmente tinha que acontecer. Eu acho que mesmo quando as pessoas estão casadas isso acontece, chega uma fase em que o menino transmuta muito e precisa do exemplo do pai, precisa estar lá ouvindo o pai dando umas puxadas de orelha.

Você e Marcello sempre tiveram uma relação bacana e respeitosa e priorizaram a família. Sempre foi assim?
Sempre pensamos no bem das crianças. A ex-mulher do Marcello, a Sheila (mãe de Diogo), também é assim, uma pessoa evoluidíssima. Ela nunca me recebeu sem um sorriso no rosto, é uma pessoa iluminada. E acho que passamos isso para os nossos filhos, pensamos neles antes de pensar na gente. Infelizmente não é assim com todo mundo, isso é raro.

Leticia Spiller Aspas (Foto: Ed. Globo)
Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

Sua relação com o Lucas também é assim?
O Lucas é mais certinho do que o Marcello.

Em que sentido?
Por exemplo: o Pedro ficava com o Marcello às terças e quintas e um fim de semana sim, outro não. Mas quando precisávamos, mudávamos. Com o Lucas mudamos também, mas ele é mais certinho. E acho que é bom para a Stella ter essa rotina mais certinha. O Lucas é mais presente ainda que o Marcello e acho isso maravilhoso. Ele quer a metade da semana para ele, quer que dividamos justamente. Acho maravilhoso um pai assim! Mas a Stella ainda está na fase muito agarradinha comigo. É uma coisa da idade mesmo.

Como é ver o Pedro experimentando sua carreira e do pai?
O Pedro toca desde os 7 anos de idade. Desde pequenos, ele e o irmão têm esse sonho da banda e está dando certo graças a Deus. Mas ele é um ator nato. Desde criança que ele me acompanha nas peças de teatro, o levava comigo para as viagens. Quando tinha que viajar com a peça O Falcão e o Imperador, ele se maquiava, colocava minha jaqueta de couro no palco, ele sempre foi assim. Com 12 anos, ele começou a fazer o Tablado e quando eu fiz Bodas de Sangue, do Amir Haddad, ele participou de tudo comigo. Ele entrava na cena com a gente na peça.

Mas quando ele viu que também era ator, além de músico?
Fui fazer o curta Joãozinho de Carne e Osso e falei: “Pedro, vamos fazer?”. Ele não queria, mas fez e ganhou até prêmio. Ele já estava com 14 anos, mas estava mais voltado para a banda. Teve uma vez que eles tiveram que gravar noturna. Na época eu estava amamentando a Stella, era produtora e estava ensaiando um musical. Ensaiei com ela na barriga até os 9 meses, parei para ter, voltei a ensaiar com ela com dois meses e no meio disso teve esse curta em Silva Jardim (município do Rio de Janeiro). Tinha que levar a criança, amamentando. Meu leite foi secando, obviamente. Contratei uma amiga minha de Minas e falei: “faz mocotó, rabada, caracu com ovo de pata porque meu leite não pode secar”. Eu já estava magra e engordei durante um mês porque eu não queria que secasse o leite. Mas isso tudo para falar que o Pedro não queria fazer o filme (risos).

Mas ele fez, né?
Fez e no dia da noturna ele chegou destruído na pousada e falou: “pô, mãe, não sei como vocês aguentam fazer isso. Eu acho que eu não quero isso, não” (risos). Ele deu um tempo e depois participou do longa O Casamento de Gorete. Ele também não queria. Mas falei: “Pedro, vamos falar de um tema importante, que é a homofobia, de uma forma bem-humorada, pensa que você vai estar contribuindo, cara, para uma coisa legal”. Consegui convencer, ele fez o filme, foi ótimo. E aí deu um tempo de novo.

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

E como ele foi parar na TV?
Ele já tinha feito e passado em três testes na Globo. Teve uma vez que, depois de um teste, o Alvarenga (José Alvarenga Junior, diretor da emissora) me ligou e falou: “Letícia, seu filho é ator. Se ele não sabe que é, ele é”. Chamavam ele para fazer os testes e ele ia sem compromisso. E eu falava para os produtores: “ele não quer fazer, tudo bem?” Mas eu acho que agora, em Malhação, ele se sentiu mais maduro e sentiu vontade de fazer. Mas também ficou muito na dúvida no começo por causa da banda.

Como é vê-lo na TV?
É engraçado. Fiquei muito orgulhosa, achei que ele está muito bem. Mas ele está mais crítico. Anteontem ele me mostrou uma cena e falou: “olha aí, mãe, não dá, como assim?” Eu falei: “meu filho, você tem a Malhação inteira para melhorar. E que bom que você está percebendo isso e tendo humildade”. Eu sou assim até hoje. Sempre acho que tenho que aprender, que tenho um desafio, não é um trabalho fácil, molezinha. Temos que compor, ter concentração e uma inteligência emocional muito aguçada. Conversei muito com ele, o pai também conversa direto.

Como é criar filhos com idades tão distintas?
É gostoso. Hoje tem essa coisa da rapidez e da tecnologia. Eu vejo essa diferença muito grande. No caso do Pedro eu não precisava fazer muito esforço porque não era uma coisa que fazia parte da rotina dele. Hoje em dia, a maioria das crianças tem celular. Minha filha não tem celular ainda! Ela me pede e eu falo: “não, você não tem maturidade para ter um celular. Você não faz dever sozinha, como é que você quer ter um celular?” Me preocupa essa demanda tecnológica.

O que te preocupa exatamente?
Outro dia um conhecido meu falou para a filha: “você tem que estudar”. E ela disse: “mas pô, pai, tem o Google, para quê eu preciso fazer isso?”. E ele respondeu: “tem o Google na sua cara” (risos). Eu tenho sorte que a escola que escolhemos para a Stella é maravilhosa e estimula exatamente o contrário: as sensações, a leitura, tem clube do livro, eu estou sempre estimulando. Agora tem o clube do livro em inglês, a escola dá uns 15 dias para ler e dividir o tempo. Tem que ler um pouquinho por dia. Ela gosta. Tem livros muito legais, que despertam a curiosidade. Mas ontem ela estava com preguiça de fazer o dever de matemática. Falou: “não entendi!”. Perguntei para ela: “como você não entendeu? Você já fez esse exercício dez mil vezes esse ano!” E ela rebateu: “Então para que eu tenho que fazer de novo?” Expliquei: “Porque é a prática, minha filha. Você só vai ser muito boa no que você quiser fazer se praticar muito. Então eles estão te dando esse exercício mais uma vez para daqui a pouco você fazer com o pé nas costas”. É muito engraçado.

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

Leticia Spiller Aspas (Foto: Ed. Globo)

E criar uma menina? É diferente?
A experiência que estou tendo é que menina é muito mais complexo e difícil de educar. Elas têm argumento para tudo, a Stella não se satisfaz com o ‘não’ no primeiro momento. Com o Pedro, quando eu falava não uma vez ele entendia. Eu tenho um certo trabalho para convencer e explicar as coisas para a Stella. Muitas vezes ela não quer olhar para mim. E eu falo: “olha para mim! Entende o que eu estou falando”. Ele era muito mais bonzinho comigo.

Como você tenta ensinar o feminismo para a sua filha?
Procuro criá-la sem preconceito. Mas foi assim com o Pedro também. O importante é mostrar a humanidade e a solidariedade para a criança. Outro dia estava falando com um amigo meu com quem visito um lar de crianças deficientes e ele falou: “seria legal você trazer a Stella com a gente um dia porque acho que agora ela está com uma idade que já está começando a entender melhor, de ver que existem outras realidades que são mais difíceis do que a dela”. Eu procuro sempre falar, mas falar é muito diferente de ver.

Muitas mulheres crescem infelizes com seu reflexo no espelho. Você sempre se gostou ou teve algum momento em que não se curtiu tanto?
Já tive vários momentos em que não me curti. Quando somos crianças, relevamos mais.  Na adolescência, com 13 anos, eu era uma varapau, não tinha peito, nada. Sempre fui bicho de goiaba igual ao Pedro. Quando eu resolvi cortar o cabelo joãozinho, com 8 anos, eu olho umas fotos e falo: “é o Pedro”. Depois tive aquela fase do mullet, com 12 anos. Aquela fase bela! (risos). Acho que temos fases. Por isso que acho que o espelho é tão perigoso. Eu lembro que a Denise Stoklos (dramaturga, encenadora e atriz) não tinha espelho na casa dela. Para mim isso é genial. Acho o espelho perigoso porque nos olhamos todo dia. Eu, por exemplo, sou geminiana. Se eu ficar todo dia olhando minha cara fico enjoada e quero mudar (risos). Às vezes, quando estou muito enjoada de mim, falo: “é só o espelho, Leticia”.

Você come de tudo?
Tenho evitado carne vermelha, acho mais pesada para digerir. E também quero consumir menos carne pelo meio ambiente. Mas não consigo cortar totalmente. Já estou comendo bem menos, às vezes fico mais de 15 dias sem comer. Quem sabe eu chego lá? Procuro comer lanchinhos saudáveis. Adoro castanha de caju sem sal torrada. Gosto de comprar a castanha crua e botar para torrar no forno, fica super saborosa e crocante. Também tenho alguns hábitos como comer açaí puro e tomar suco verde de manhã. Sempre opto pela alimentação saudável, mas se não tiver de jeito nenhum, tudo bem.

Tem nutricionista?
A primeira vez que fui a uma nutricionista foi com 40 anos. Fui na Patricia Davidson, que eu gosto muito. Desde então não voltei mais. Quero voltar para ver como é que está meu sangue. Tem coisas no nosso sangue que dão intolerância. Desde que comecei a evitar o que me dá intolerância melhorou muito a minha digestão. Estava com uma digestão tão ruim que estava tendo até taquicardia. Só com a alimentação adequada melhorou. É impressionante. Estou louca para voltar nela para ver de novo meu sangue.

Como é esse exame de sangue?
É um exame de sangue que analisa os minerais que estão faltando e os metais que estão intoxicando seu sangue. Cozinhamos em panela de alumínio, passamos desodorante que tem alumínio, botamos o alumínio para dentro, né? E isso é péssimo para o organismo. Tudo que eu posso fazer para tirar o alumínio agora, eu faço. Sempre que eu viajo eu compro desodorante sem alumínio ou peço para uma amiga minha que mora fora trazer. Também comecei a comprar panelas de cerâmica para cozinhar o máximo que der sem ser na panela de alumínio.

Como é sua rotina de exercícios?
Tenho a rotina dos ritos tibetanos que são dez posturas da ioga em cinco exercícios e isso faz o meu metabolismo girar de manhã. São 20 minutos disso com uma pequena meditação. Faço sempre, ao acordar, antes de tomar o café da manhã. Tomo banho e faço porque você gera calor no corpo e é legal você armazenar esse calor durante um tempo. Se você toma um banho depois dissipa. Quando não estou fazendo exercício nunca, faço os ritos tibetanos e já melhora demais uma dorzinha, uma coisinha qualquer que estou sentindo. Também faço os exercícios de alongamento da fisioterapia porque eu tive uma compressão do disco e tenho que fazer sempre. Procuro fazer o aeróbico para estimular o cardíaco e faço musculação de vez em quando. Essa semana não fui à musculação e fiz dança porque me dá mais prazer. Também quero inserir pilates na minha rotina para fortalecer a musculatura interna.

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

Você se cobra ou se sente pressionada para estar dentro dos padrões de beleza impostos pela sociedade?
Eu não me cobro tanto, eu como de tudo. Eu me permito. Agora, por exemplo, estou com visita em casa e, como era muita gente, fizemos um macarrão à bolonhesa. Eu comi e era de noite. Coisa que eu não faço normalmente, mas eu me permiti. Adoro comer bem. Existe uma diferença entre comer bem e ter um surto psicótico e comer biscoito bono com requeijão, que é uma coisa da minha infância. Eu adoro, mas eu não faço isso. É muito bom! (risos) Se puser na minha frente bono com requeijão, vou comer.

Você parece muito zen, tranquila… É sempre assim?
Não! Me irrito demais, mas dou um soco no console do carro e está tudo resolvido (risos). Eu falo para a minha filha: “Stella, não bate porta, não grita”. E ela responde: “Mas eu não consigo, mamãe”. Então falei: “soca o colchão, soca o travesseiro (risos)”. Outro dia ela estava socando o travesseiro (risos).

Como é sua relação com a espiritualidade?
Sou muito mais cristã do que católica, muito mais budista do que das religiões dos orixás. Sou ecumênica, religiosamente falando. Minha espiritualidade está além de qualquer religião. Eu me identifico com os elementos da natureza, com os seres mais iluminados. Acredito no ser cristão porque acredito que Jesus é um espírito de luz muito forte que guia essa grande corrente do bem que temos que lutar para sermos mais fortes. Eu acredito em muita coisa, mas o mais importante é o meu ritual de espiritualidade. Quando estou mergulhando na cachoeira para mim é um momento sagrado, um momento que sei que estou fazendo a minha limpeza porque acredito no poder da natureza. Acredito no poder da oração, de estarmos sempre conectados com essa espiritualidade, com a meditação. É muito mais do que uma religião.

Leticia Spiller Aspas (Foto: Ed. Globo)

Em que você se apega nos momentos difíceis?
Na oração. Medito, oro, acendo vela em casa, sou bem da minha casa, do meu espaço.

Estamos vivendo momentos difíceis no Brasil, em especial no Rio, onde você mora. Em algum momento já pensou em sair do país?
Até pensei, mas acho que não conseguiria sair totalmente do Brasil. E depois que escutei uma menina, poeta, de uma comunidade, falando justamente isso na poesia dela, parei para pensar sobre as minhas atitudes. Ela falava que se você saísse do Brasil, ia estar fugindo do problema do seu país, em vez de estar aqui junto para lutar. Tem muita gente querida do meu coração aqui que eu não sei se conseguiria deixar por mais de um ano. Só se eu levasse todo mundo junto (risos).

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

O Pablo, seu namorado, é um que você levaria junto, né? Há quanto tempo vocês estão juntos?
Estamos juntos há quase quatro anos. Foi o teatro que nos uniu. Nos conhecemos fazendo Dorotéia, de Nelson Rodrigues, que foi um processo profundo, e tinha seis atrizes e seis músicos. Ele foi um dos músicos escolhidos para atuar junto com a gente. Foi assim que nos conhecemos e me apaixonei muito pelo Pablo porque ele é uma pessoa encantadora, educada, muito diferente do brasileiro, no termo geral. Me apaixonei pela alma dele antes de tudo, essa alma de artista que ele tem. A arte dele me encantou, a forma como ele se colocava como profissional e pessoa. Isso antes de conhecê-lo. Depois que o conheci, me apaixonei mais ainda. Ele é um cara que vale a pena, querido, que se importa com os outros, não é um cara que só pensa nele.

Vocês estão casados?
Estamos casados. Somos namorados, mas moramos juntos (risos).

Em algum momento a diferença de 16 anos entre vocês pesou?
O Pablo é a pessoa mais nova com quem eu me relacionei até hoje. Em compensação é a que tem o espírito mais maduro e avançado.

Leticia Spiller Aspas (Foto: Ed. Globo)

Já sofreu preconceito por namorar alguém mais novo?
Não procuro estar muito por dentro dessas coisas. Acho que não. No início do namoro, eu mesma fiquei com um medinho. Porque tinha minha família em jogo. Mas acho que quando a coisa vem tão forte como foi comigo e com o Pablo, não podemos fechar os olhos.

Mas do que você teve medo?
Pensei: “Caramba, ele é mais novo!” Estava entrando em um universo desconhecido. Não sabia que eu ia estar com ele até hoje (risos).

Como Pedro reagiu ao namoro?
O Pedro é muito de boa. Eles se dão super bem.

Letícia Spiller (Foto: Vinicius Mochizuki)

Como é sua relação com a internet e as redes sociais?
Não sou muito obsessiva com isso. Acho que o artista não se contenta só com isso, ele é o maior símbolo de resistência que temos do contato humano, seja através da música, nos shows, que você está ali ao vivo, se comunicando com as pessoas, ou através do teatro, que é onde nos relacionamos com as pessoas. Ainda bem que ainda existe isso.

Mas o que as redes sociais significam para você?
Comecei a ficar mais antenada quando virei produtora e vi que a rede social poderia ser uma ferramenta para o meu trabalho. Daí comecei a postar tudo o que eu estava fazendo, as peças, eu estava sempre divulgando meu trabalho nas redes sociais. Para mim é muito mais isso do que outra coisa. Mas sei que as pessoas curtem um lado mais fashionista e outras coisas que de vez em quando eu coloco.

Como o quê, por exemplo?
Percebi coisas que eu faço na minha vida e são boas para mim, que me tornam mais saudável, e eu compartilho. Por exemplo, algumas posturas da ioga, para que servem, compartilho e falo: “pratica lá que vai fazer bem para você”. Também posto minha alimentação, dou pequenas dicas. Criei uma hashtag que se chama “meu segredo de saúde” porque de beleza já tem muito, de saúde não tem tanto. Naturalmente isso vai surgindo. Tem uma pessoa que me ajuda, tem os assessores também. Não estou sozinha nessa porque às vezes fico cansada. Tem dias que penso: “hoje não quero nem ver rede social”. Minha postagem no dia a dia é mais intuitiva, mas quando estou divulgando algum trabalho não meço esforços (risos).

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