Lula favorito e inviável só excita imbecis. Dória, Alckmin, Marina, Bolsonaro: quem comemora?

A pesquisa Datafolha com as intenções de voto para a Presidência, divulgada neste domingo pela Folha, traz bons elementos para a reflexão daqueles que pretendem ocupar a cadeira da qual Michel Temer só se despede quando passar a faixa ao vencedor, no dia 1º de janeiro de 2019. E assim será para a melancolia do golpismo moralista e do moralismo golpista, hoje com farta representação também na imprensa. Infelizmente! Por incrível que pareça, o Ministério Público Federal, a Justiça e os políticos estão criando um monstro da ambiguidade chamado Lula: quanto mais inviável sua candidatura vai se mostrando do ponto de vista legal, mais cresce o seu nome como opção eleitoral. Que nome isso tem? Perigo.

Como vocês sabem, Lula avançou no primeiro turno — em junho, seu teto era de 30%; agora, 36%. A rejeição a seu nome variou de 46% para 42%. No segundo turno, há uma tendência de ampliação da vantagem. Venceria todos os adversários possíveis, com viés de alta: contra o tucano Geraldo Alckmin, 46% a 32%, ante 45% a 32% em junho; contra João Dória, também do PSDB, 48% a 32% — há três meses, 45% a 34%. A maior mudança se deu no confronto com Marina Silva (Rede): de um empate em 40% para uma vitória por 44% a 36%.

De fato, o único que pode comemorar é Lula. No caso de Marina, resta torcer pela desgraça do ex-aliado. Já digo por quê. Vamos ver? Há três meses, o índice mais alto alcançado por Jair Bolsonaro (PSC) era 18%; agora, 19%. A rejeição a seu nome, no entanto, passou de 30% para 33%. Num eventual segundo turno, ele segue estagnado: Lula o vencia no levantamento passado por 45% a 32; agora, 47% a 33%. Contra Marina, perdia por 27% a 49%; desta feita, 29% a 47%.

João Dória (PSDB) não tem motivos para vibrar com o Datafolha, e é claro que ele sabe disso. De junho para cá, intensificou sua agenda de viagens Brasil afora; fez-se ainda mais presente nas redes sociais; admitiu, abertamente, que é pré-candidato; esmerou-se no marketing digital etc. E ponha “et cetera” nisso. Na pesquisa passada, o seu melhor desempenho era de 10%, os mesmos de agora. Mas a rejeição aumentou: de 20% para 25%. No segundo turno, estava 21 pontos atrás de Lula; agora, são 26.

Seu adversário interno no partido, Geraldo Alckmin, vive situação semelhante, mas ligeiramente melhor num particular. Também o tucano se disse um pretendente à Presidência e intensificou articulações com outras legendas, mas exibe um teto de 10% nos dois levantamentos. A rejeição oscilou para baixo: de 34% para 31%. O governador de São Paulo ampliou a vantagem sobre Ciro Gomes (PDT), um confronto que dificilmente acontecerá: de 34% a 31% para 37% a 29%. Se disputasse a jornada final com o petista Fernando Haddad, levaria por 44% a 17%.

A redista, ou sustentabilista — sei lá como dizer isso… — Marina Silva também empacou. Num cenário sem Lula, o seu topo, neste setembro, é de 23%; em junho, era de 22%. Uma das simulações há três meses dava-lhe 27%, com apenas quatro candidatos: além dela, Bolsonaro (18%), Dória (14%) e Ciro Gomes (12%). Não vai acontecer assim. Como já se viu aqui, sua performance contra Lula num eventual segundo turno piorou bem: do empate em 40%, ela foi para uma derrota por 44% a 36%. A sua vantagem contra Bolsonaro era de 22 pontos em junho (49% a 27%); agora, seria de 18 pontos (47% a 29%). Sua rejeição praticamente não mudou: 26% em setembro ante 25% em junho.

A Marina, como escrevi lá no alto, resta torcer bastante. Seria ela a principal beneficiária de uma eventual inelegibilidade de Lula. Quando ele está na disputa, sua melhor marca é 14%. Sem o petista, ela chega a 23% e lidera em todos os cenários. Já era assim em junho.

O que esses números estão a apontar? A política como delegacia de polícia provocou desastres em série nas legendas e, como se nota, congelou o cenário. O único que se moveu nesse período foi Lula, que já não tem mais como ser desmoralizado. Vive aquela situação, perigosa para o país, que poderia ser assim resumida: quanto pior para ele, melhor para… ele! Não há brasileiro, pobre o rico, escolarizado ou não, que ignore as graves acusações que há contra o ex-presidente. Os números estão a indicar que largas parcelas dos brasileiros decidiram marchar na contramão das decisões do Ministério Público e da Justiça. Nota a margem: em junho, 22% não votariam em Sérgio Moro de jeito nenhum. Agora, são 25%.

A sua eventual condenação pelo TRF4, o que o tornaria inelegível, com possibilidade de prisão — caso o Supremo mantenha jurisprudência —, é variável de efeito imprevisível. A tanto, não se atreveu nem Sérgio Moro. Lembro trecho de sua sentença. Depois de afirmar que haveria motivos para a preventiva do petista, escreveu o juiz:
“Entretanto, considerando que a prisão cautelar de um ex-Presidente da República não deixa de envolver certos traumas, a prudência recomenda que se aguarde o julgamento pela Corte de Apelação antes de se extrair as consequências próprias da condenação. Assim, poderá o ex-Presidente Luiz apresentar a sua apelação em liberdade.”

Ou por outra: via motivos para a prisão, mas ficou com medo de tomar tal decisão. O destemido de sempre jogou a batata quente no colo do TRF4. Um Lula favorito e inviável é motivo de alegria apenas para os imbecis. Mas eis aí a obra fabulosa do MPF, de Rodrigo Janot e da direita xucra.

Reinaldo Azevedo