Melhora em crédito e em emprego faz mercado rever projeção do PIB

Um dos setores mais atingidos pela crise, construção civil voltou a contratar Foto: Tiago Queiroz/Estadão

No início do ano, a chegada de um novo governo, de orientação claramente liberal na economia, trouxe uma onda de otimismo, e os analistas previam um crescimento do PIB de 2,5% em 2019. Esse otimismo não durou muito. As dificuldades políticas, a falta de confiança de investidores e empresários e as adversidades externas foram minando as expectativas, e as projeções para o PIB caíram abaixo de 1%. Agora, porém, esse quadro parece que começa a mudar mais uma vez.

A melhora em alguns indicadores importantes, como criação de empregos e aumento no crédito, vem transformando o humor dos analistas. Há duas semanas, o Itaú, por exemplo, elevou sua estimativa de crescimento da economia este ano de 0,8% para 1% – havia pelo menos três anos que o banco não elevava o número projetado.

Também no começo deste mês, o Safra alterou sua projeção de 0,8% para 0,9%. “Pode parecer pouco, mas é uma diferença significativa. No fim de julho, esperávamos 0,8%, mas achávamos que podia ser até 0,5%. Agora, temos 0,9%, mas pode ser mais que isso”, diz o economista-chefe do banco, Carlos Kawall. Votorantim e Bank of America também dão sinais de que reverão seus números para cima. Hoje, eles têm 0,7% e 0,8%, respectivamente.

O Boletim Focus, elaborado pelo Banco Central e que reúne projeções de bancos e consultorias, indica que o mercado estima alta de 0,88% para 2019. Em agosto, a previsão era 0,8%. Os números mostram que, embora ainda distante de uma arrancada forte, a economia pode estar começando a ganhar tração.

Motores. Um dos indicadores que mostram isso é o de empregos. Os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) apontam que o saldo de vagas formais no País foi positivo por seis meses consecutivos. No acumulado do ano, são 761,7 mil vagas criadas. Segundo cálculos das instituições, uma alta de 2% no PIB é compatível com a criação de até 900 mil postos de trabalho formal no ano.

Para o economista Luka Barbosa, do Itaú, outro indicador importante de que a economia está mais forte é a concessão de crédito para pessoa física, que cresceu 14% nos últimos 12 meses. Essa alta tem permitido um avanço no comércio e deve se espalhar pela economia. “É questão de tempo para outros dados, como a indústria, indicarem melhora”, afirma.

Economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif também afirma que o crédito tem sido o responsável por alavancar a economia. “Setores ligados ao crédito têm puxado a melhora e o mercado de trabalho, incluindo a construção civil. Tudo ainda muito lento, mas melhorando”, pondera.

A XP aposta em um crescimento do PIB de 0,9% neste ano. Para Zeina, a liberação do FGTS também deve ajudar o PIB a avançar um pouco mais, dependendo de quanto os trabalhadores destinarem de seus saques para o consumo. A economista, no entanto, não se anima a mudar sua projeção. “Confesso que tenho um certo medo.”

Embora haja bancos e consultorias oficializando números maiores para a economia, há mesmo, ainda, uma certa relutância nesse movimento. O chefe de economia e estratégia do Bank of America no Brasil, David Beker, diz que erros cometidos pelos economistas nos últimos anos, com previsões de crescimento que não se confirmaram, deixaram os analistas com receio de rever seus dados para cima. “O mercado está cético. Tem medo de errar de novo.”

A economista Silvia Matos, do Ibre/FGV, também destaca o papel do FGTS para movimentar a economia. “Antes da notícia da liberação, prevíamos um aumento de 1,8% no consumo, agora vemos 2%, podendo ser melhor porque o governo antecipou os saques.”

Como Zeina, Silvia também mantém sua previsão para o crescimento do PIB, de 1,1%. “Nunca achei que seria menos de 1%. Mas também não revejo para cima porque pode haver algum choque.”

Um dos setores mais atingidos pela crise, construção civil voltou a contratar Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Relação PIB e emprego. Um dos fatores que levaram o Itaú a projetar um PIB maior neste ano foi o saldo positivo de vagas formais nos últimos dois meses: 121 mil em agosto e 157 mil em setembro. Nos dois meses anteriores, o número havia ficado na casa dos 40 mil. Se conseguir manter uma média de 50 mil vagas com carteira assinada por mês em 2020 – ou 600 mil durante o ano –, o Brasil deve ter um PIB de 2%. Segundo pesquisa do banco, caso o ritmo do mercado de trabalho fosse de 20 mil postos por mês, o PIB ficaria ao redor de 0,8%.

A economista Silvia Matos, do Ibre, tem um cálculo um pouco mais otimista. Segundo ela, um PIB de 2% é compatível com a criação de 900 mil vagas formais. Estudos do Banco Votorantim, por sua vez, apontam que um crescimento de 1% ao ano na economia brasileira pode significar um milhão de vagas a mais. Nessa conta, porém, também são contabilizados empregos informais.

Estadão