Vietnã

No Vietnã, turistas entram em túneis da guerra e atiram com fuzis AK-47

  • Guia mostra entrada de túnel usado por guerrilhas vietcongues no sul do Vietnã

A Guerra do Vietnã terminou em 1975, mas, no país asiático, turistas ainda podem interagir com os resquícios deste que foi um dos mais sangrentos conflitos do século 20.

A cerca de 50 quilômetros da Cidade de Ho Chi Minh (a antiga Saigon) se localizam os chamados Túneis de Cu Chi, um dos principais testemunhos da bem-sucedida guerrilha que combatentes vietnamitas empreenderam contra a presença dos Estados Unidos em seu solo nos anos 60 e 70.

Trata-se de uma rede com mais de 120 quilômetros de claustrofóbicos túneis e galerias construídos sob uma área de florestas no sul do Vietnã, na qual os vietcongues (guerrilheiros que defendiam o ideal socialista do Vietnã do Norte contra os americanos) estocavam armas, curavam seus feridos, se escondiam de bombardeios promovidos pela força aérea dos EUA e preparavam emboscadas mortais contra soldados ianques que estavam em terra.

Turista atravessa um dos claustrofóbicos túneis de Cu Chi, no Vietnã

Com a companhia de guias locais, os turistas podem entrar nestes buracos e caminhar entre suas opressivas e úmidas paredes de terra.

As vias subterrâneas ganharam alguma estrutura para receber os forasteiros (como uma parca iluminação elétrica e saídas de emergência, caso alguém passe mal lá dentro). Mesmo assim, é impossível não se surpreender com a constatação de que pessoas viveram como formigas dentro destes túneis por anos a fio, enquanto planejavam matar e tentavam não morrer.

“É um tour que vale a pena”, diz a turista australiana Stephanie Lee, que visitou os túneis de Cu Chi em janeiro deste ano “Você realmente consegue ver como os vietnamitas lutaram durante a guerra, tentando sobreviver enquanto combatiam os soldados americanos. Use a lanterna do seu celular no caminho, que vai te ajudar a ver melhor e se mover mais rápido através do túnel”.

Armadilhas e “ratos de túnel”

Toda a área que rodeia os túneis de Cu Chi foi palco de intensos combates durante a Guerra do Vietnã. Antes do passeio começar, os guias costumam mostrar um vídeo que explica a história do conflito e as táticas de guerrilha usadas pelos vietcongues contra os americanos.

Tanque de guerra americano destruído é uma das atrações desta região do Vietnã

Isso incluía ataques relâmpagos realizados a partir dos túneis (cujas portinholas de saída para a superfície sempre se encontravam camufladas na mata) e a montagem de armadilhas que mais lembram métodos para capturar animais selvagens na floresta: uma delas, que ainda pode ser vista pelos turistas, consiste em um buraco recheado de longas estacas de madeira, que atravessavam o corpo do soldado inimigo desavisado que caísse ali.

Os ataques que partiam dos túneis causaram tantas baixas entre os americanos que, durante a guerra, os Estados Unidos selecionaram militares corajosos para, armados apenas com facas, pistolas e lanternas, entrar nestes túneis, tentar matar vietnamitas que estivessem lá dentro e plantar explosivos para destruir estas estruturas subterrâneas. Estes homens ficaram conhecidos como “tunnel rats” ou “ratos de túnel”.

Era uma empreitada de perfil quase suicida, que, não raro, acabava com a morte do soldado americano.

Nos dias de hoje, muitos dos vietnamitas chamam esta conflito de “Guerra de Resistência contra a América” e se orgulham de ter, no fim das contas, feito os americanos voltarem para casa sem atingir seu grande objetivo no confronto, que era impedir que o Vietnã do Sul (cujo governo era alinhado com os Estados Unidos) fosse dominado pelo Vietnã do Norte e seu regime socialista (o que aconteceu em 1975).

Missão para corajosos: nesta foto de 1967, soldados americanos ajudam companheiro a sair de túnel vietcongue no sul do Vietnã

Alguns troféus desta vitória ainda são visíveis na superfície dos túneis de Cu Chi. Um dos mais famosos deles é um tanque de guerra usado pelos EUA completamente destruído, que hoje enferruja, melancolicamente, cercado pela selva vietnamita.

Por 20 dólares, sente o dedo no gatilho

A poucos minutos da região dos túneis subterrâneos, os turistas têm a chance de ter uma experiência que se aproxima ainda mais da realidade da guerra. Na área existe um tosco campo de tiros onde, por cerca de 20 dólares (R$ 63), o viajante pode sentar o dedo no gatilho de um rifle de assalto.

O preço dá direito a 10 tiros, que podem ser disparados com uma AK-47 (arma usada pelos vietcongues) ou com um M16 (rifle que carregavam tropas americanas na Guerra do Vietnã).

Turista atira com fuzil na área onde estão os túneis de Cu Chi, no Vietnã

A estrutura do lugar é precária: as armas ficam acopladas a um muro de cimento dilapidado e mal é possível ver as superfícies atingidas pelas balas. Para completar, alguns instrutores oferecem mais projéteis para o turista em troca de uma pequena propina. Porém, a experiência diverte muita gente (veja mais no vídeo abaixo).

SERVIÇO
Maior metrópole do Vietnã, a Cidade de Ho Chi Minh é o melhor lugar de onde organizar o tour até os túneis de Cu Chi. Diversas agências turísticas que operam na cidade realizam o passeio, que geralmente inclui o transporte até os túneis, os serviços de um guia e o ingresso a este sítio histórico.

A Buffalo Tours e a Urban Adventures são duas das empresas mais famosas neste mercado.

Não há voos diretos entre o Brasil e o Vietnã: antes de chegar ao país asiático, é preciso fazer escala em aeroportos de locais como Alemanha ou Dubai. Brasileiros precisam de visto para entrar em território vietnamita. Para saber como consegui-lo, entre em contato com a representação diplomática do Vietnã no Brasil.

Embaixada da República Socialista do Vietnã
SHIS QI 05 Conjunto 14 Casa 21
71615-140 Brasília-DF
Página: www.vietnamembassy-brazil.org/pt/

David McKelvey/Creative Commons

Bonecos mostram o trabalho dos vietcongues com explosivos dentro dos túneis

Tyler/Creative Commons

Armadilha feita pelos vietcongues para pegar soldados americanos

Lars Curfs/Creative Commons

Os túneis de Cu Chi são uma popular atração turística no sul do Vietnã

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