Evo Morales chega para homenagens, “Espírito de Che Guevara resiste em Vallegrande”.

O presidente boliviano, Evo Morales (centro), chega a Vallegrande, em 8 de outubro de 2017, para participar das cerimônias pelos 50 anos da morte de Che Guevara

“Podem morrer as pessoas, mas nunca suas ideias”. Em Vallegrande, localidade boliviana onde Ernesto Che Guevara foi capturado há 50 anos, mantém-se viva neste domingo (8) a frase do guerrilheiro mais famoso da América Latina.

“Acharam, na época, que era só matar o Che e acabou. Mentira! Mataram o Che, e ele foi muito maior, multiplicou-se por milhões”, disse o cubano Eloy Fidalgo López, de visita a Vallegrande para relembrar as cinco décadas da morte do guerrilheiro, aos 39 anos, nas mãos do Exército boliviano.

Com o impulso do governo de Evo Morales, um dos poucos remanescentes da onda de esquerda que se espalhou pela América Latina nos últimos anos, busca-se transformar Vallegrande em uma lembrança viva da luta anti-imperialista.

Neste domingo, Morales liderou uma marcha para percorrer os caminhos trilhados há 50 anos pelo guerrilheiro argentino – de Lagunillas a Samaipata – executado pelo Exército em La Higuera, um dia após sua captura em Vallegrande.

“Estamos em outros tempos, tempos da libertação democrática”, ressaltou o presidente, enfatizando que, diferentemente de há meio século – quando se combatia com balas -, agora, a arma é “o voto”.

Ainda que os motivos possam ser diferentes, seja para atrair o turismo, seja para idealizar a Revolução, autoridades locais e nacionais se esmeraram nesta data comemorativa.

Em Vallegrande, onde antes estavam os restos mortais de Che e de seis companheiros, agora ergue-se um mausoléu.

Flores, “cubanos”, guimbas de cigarro e fotos de Che sobre uma pedra com os nomes manuscritos dos sete guerrilheiros mantêm viva a memória de um dos mitos da revolução anti-imperialista planetária.

“A peregrinação se deu, sobretudo, até 1997, quando não se sabia onde estava enterrado”, explicou a guia turística María Vargas.

Depois que seus restos mortais foram levados para Santa Clara, em Cuba, “diminuiu um pouco”, disse ela à AFP.

– Fazendo história –

Hoje, entre barracas instaladas ao lado do mausoléu (Evo Morales passará a noite em uma delas), não faltam os jovens e os nem tão jovens, vestidos com o tradicional uniforme verde-oliva, de barba e boina – os mesmos itens que imortalizaram Che pelas lentes do fotógrafo Alberto Korda.

Perto do monumento, rodeado por um parque com árvores plantadas, entre outros, por sua filha Aleida Guevara, por amigos e até por desconhecidos, há um pequeno museu com as fotos das últimas horas de Che morto e cópias de seus diários.

“Este centro foi construído há um ano. Tudo para fortalecê-lo por ocasião dos 50 anos e transformá-lo em uma atração turística”, reconhece a guia.

Estiveram nessa comemoração três dos quatro filhos de Che, delegações de Cuba e da Venezuela e admiradores de toda América Latina. Entre eles, seu amigo de alma Carlos “Calica” Ferrer, que conheceu o guerrilheiro quando este tinha quatro anos, e ele, três, há 85 anos.

Os destinos de ambos se separaram no Equador. Ferrer tinha ido a Quito jogar futebol, enquanto Che esperava em Guayaquil para embarcar rumo ao Panamá. Os dois viajaram juntos por quatro meses pela América Latina.

O primeiro país ao qual chegaram foi a Bolívia, em 1953.

“O destino fez que não seguíssemos a rota e, se você quer saber, lamento não ter seguido com ele”, disse, emocionado, vendo algumas fotos do amigo.

Ferrer seguiu para Caracas, onde se encontrou com Alberto Granado, o primeiro companheiro de viagem do argentino, e que inspirou o filme de Walter Salles, “Diários de Motocicleta”.

Che Guevara chegou à Guatemala e, depois do golpe de Estado contra o governo democrático de Jacobo Arbenz, seguiu para o México, onde encontrou Fidel.

“Ali começa a ser ‘o’ Che”, afirmou.

ABI-AFP