João Pessoa 22/04/2019

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O primeiro round de Bolsonaro na Câmara e Senado não terá vida fácil

Aliados do governo vão comandar Câmara e Senado, mas isso não significa vida fácil para o Planalto, nem que as velhas práticas da política foram sepultadas

Em seu primeiro teste de fogo no Congresso, o governo do presidente Jair Bolsonaro emplacou uma vitória maiúscula ao eleger dois aliados para presidir a Câmara e o Senado e, como efeito colateral saudável, enfraqueceu o poder do MDB, legenda que transformou em reféns quase todos os presidentes da República desde a redemocratização. O resultado das eleições legislativas pavimentou o caminho para a tramitação da reforma da Previdência e, por isso, foi festejado pelo mercado. Tanto o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), reeleito na Câmara, quanto o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), o azarão que venceu no Senado, já deram declarações públicas em defesa da aprovação do projeto. Foi um excelente começo. Apesar disso, o presidente não terá vida fácil para garantir o avanço de sua agenda econômica. Até seus aliados reconhecem que ainda faltam votos para aprovar as mudanças previdenciárias, reclamam da fragilidade da articulação política e já se embolam em disputas fratricidas por poder.

Desde a campanha, Bolsonaro promete atender os congressistas em bases republicanas, sem entrar na ciranda do toma lá dá cá. Sua meta, repete o presidente, é derrotar o que ele chama de “velha política”. Na eleição para a presidência do Senado, deu certo. Com o apoio do ministro Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil, Davi Alcolumbre venceu o até então favorito Renan Calheiros (MDB-AL) graças a uma combinação de manobras antirregimentais com um discurso de renovação. Encarnando a figura do anti-Renan, Alcolumbre se apresentou como o mensageiro dos novos tempos. A estratégia ganhou as redes sociais, que pressionaram os senadores a derrotar o velho cacique emedebista. Aos 41 anos, Alcolumbre não é tão veterano quanto seu adversário, mas também está longe de ser um principiante. Ele foi vereador em Macapá e exerceu três mandatos de deputado federal em Brasília, sempre nas searas do baixo clero, antes de conquistar uma vaga no Senado, em 2014, numa campanha que lhe rendeu um processo no Supremo Tribunal Federal (STF) pela suspeita de usar notas fiscais frias.

PRAGMATISMO – Reunião de emedebistas, derrotados depois de décadas no comando: aliança com o governo

O enredo da consagração do novo presidente do Senado seguiu um roteiro que poderia ter sido escrito por Renan Calheiros. O azarão, como sempre fez o outrora favorito, desrespeitou quanto pôde o regimento da Casa para vencer o páreo. Alcolumbre, atropelando as regras internas que impedem um candidato de presidir a sessão da eleição, não apenas a presidiu como levou o plenário a aprovar o voto aberto. O emedebista exigia a votação secreta. O caso foi parar no STF. No sábado 2, o ministro Dias Toffoli determinou a votação secreta e a saída de Alcolumbre da presidência da sessão, como estabelece o regimento do Senado. Assim foi feito. No primeiro escrutínio, a surpresa. Apesar de serem 81 os senadores, havia 82 votos. Fraude flagrante. A votação teve de ser refeita. Enquanto a segunda rodada transcorria, as redes sociais aumentaram a ofensiva para que os senadores revelassem seus votos. Um dos principais alvos da pressão, Flávio Bolsonaro, filho do presidente, revelou sua opção por Alcolumbre. Tucanos seguiram o mesmo caminho. Renan, que contava com o voto deles, acusou o golpe e desistiu.

NA CÂMARA – Rodrigo Maia: compromisso com as reformas

O próprio Jair Bolsonaro achava que Renan seria o vencedor, tanto que ligou para o alagoano quando este foi anunciado como o candidato do MDB. O ministro da Economia, Paulo Guedes, também nutria simpatia pela candidatura do velho cacique, que, além de ter se declarado favorável à reforma da Previdência, tem experiência de sobra para garantir uma tramitação célere de qualquer projeto — só não se sabe a que custo. Onyx Lorenzoni, no entanto, jogou todas as fichas em Alcolumbre. O desafio agora é conseguir que o eleito faça avançar a agenda econômica. Não será fácil. Alcolumbre recebeu 42 votos para conquistar a presidência do Senado, mas parte de seus eleitores já se declarou contra as mudanças previdenciárias, que dependem do apoio de 49 senadores. No Planalto, há certa preocupação com a inexperiência de Alcolumbre e a possibilidade de Renan partir para uma retaliação. Alcolumbre pretende minimizar esse risco. Empossado no cargo, ele estendeu a mão a senadores do MDB, inclusive a eleitores de Renan.

Na Câmara, também faltam votos para a aprovação da reforma da Previdência, segundo Rodrigo Maia, reeleito para presidir a Casa com o folgado placar de 334 votos. Filiado ao DEM, que comandará assim as duas Casas do Congresso, Maia diz que a reforma pode ser aprovada até maio, mas já avisou que o texto não será submetido diretamente ao plenário, como queria o governo. Terá de passar antes por duas comissões. O ex-deputado Carlos Manato, que depois de perder a eleição ganhou um cargo na equipe de articulação política, estima que existam hoje entre 220 e 250 votos favoráveis à Previdência na Câmara. São necessários 308. Para consegui-los, o Planalto está atendendo caso a caso aos pedidos dos deputados, nos moldes do velho toma lá dá cá. Felício Laterça (PSL­-RJ) já emplacou um aliado no Ministério dos Direitos Humanos. Nos próximos dias, Manato receberá cinquenta parlamentares em audiência para ouvir seus pedidos. A conversa deve girar em torno de postos na máquina pública. O governo também promete liberar todos os meses 1 milhão de reais em emendas de cada deputado.

“Quero que arrumem outra desculpa para não ficar satisfeitos. O governo vem atendendo”, afirma Manato. O problema está na dose do atendimento e nos interesses difusos. Alguns deputados governistas, por exemplo, não aceitam negociar com o líder do governo na Câmara, Vitor Hugo, nem com os candidatos derrotados que receberam cargos na Casa Civil, como é o caso do próprio Manato. Já o Centrão quer combinar as bases de seu apoio à agenda econômica diretamente com o Planalto. O grupo, que tem cerca de 150 deputados, é comandado por astutos craques do fisiologismo. Durante a campanha, Bolsonaro disse que não queria papo com essa turma. Agora terá de, pelo menos, ouvi­-la. A derrota de Renan, como se vê, não é exatamente o sepultamento da velha política.

O roteiro não era bem esse

ELE, SIM – Ceciliano, do PT, o vencedor: derrota de Flávio Bolsonaro

Quando o então nanico PSL emplacou, sob o impulso bolsonarista, a maior bancada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ninguém tinha dúvida de que o partido ganharia protagonismo. Mas o cenário não se confirmou. A eleição para a presidência da Casa, no sábado 2, consagrou o petista André Ceciliano, que já ocupava a posição havia um ano, com um placar acachapante: 49 votos favoráveis, de um total de 64 (detalhe carcerário: seis parlamentares que compõem a bancada fluminense não compareceram por estarem presos). O que deu errado, afinal, num enredo que parecia sob medida para que o clã Bolsonaro fincasse pé no Parlamento do seu berço político?

A resposta para a mudança de script está nos enroscos do primogênito Flávio Bolsonaro, ex-deputado estadual e agora senador eleito, cujas movimentações financeiras suspeitas vêm sendo investigadas pelo Ministério Público do Rio. Como era Flávio Bolsonaro o timoneiro das costuras na Alerj, o PSL local — que, aliás, ele ainda preside — perdeu o norte. Nem as principais comissões da Assembleia o partido conseguiu. Para concorrer com uma chapa própria, são necessárias treze assinaturas. O PSL tem doze deputados e não logrou arregimentar nem um nome a mais. Em um dado momento, os pesselistas apostaram as fichas no candidato do governador Wilson Witzel — Márcio Pacheco, do PSC. Diante da derrota iminente, porém, Pacheco saiu do páreo e, com o aval de Witzel, tratou de unir-se ao PT.

Deputado estadual mais votado no Rio e homem de confiança de Flávio Bolsonaro, Rodrigo Amorim reconhece que o PSL está pagando caro pela inação. “Só tomamos posição com o aval do Flávio, e ele tinha outras preocupações”, diz. No fim das contas, sete deputados do partido do presidente Bolsonaro se abstiveram e não barraram a escalada do petista Ceciliano. Sem o protagonismo planejado, a vida do PSL no Rio não será aquela facilidade que prometia ser, pelo menos à primeira vista.

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