‘Ocupamos a Paulista para pedir igualdade’, diz organizador da Parada Gay.

parada gayAjuste fiscal: em sua 19ª edição, Parada Gay tem menos verba da Prefeitura de São Paulo e ausência da CUT, que reclama de taxas abusivas

SÃO PAULO – Milhares de pessoas tomam a Avenida Paulista na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que chega à 19ª edição enfrentando sociedade e Congresso cada vez mais conservadores, na opinião de líderes do movimento gay e políticos que participam do evento. O evento também foi marcado por cobranças de mais segurança e apoio ao movimento LGBT ao prefeito Fernando Haddad e ao governador Geraldo Alckmin.

A marcha começou por volta de 12h20, segue pela Paulista, Rua da Consolação, até a Praça Roosevelt, que está completamente lotada. Sete trios elétricos já chegaram à Roosevelt, onde acontece a dispersão. Ainda não há estimativa oficial do número de participantes. Mas os organizadores esperam que 2,5 milhões de pessoas compareçam ao evento, que é um dos maiores do mundo.

Este ano a organização escolheu como tema “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeitem-me!”, uma referência à música de Dorival Caymmi à personagem Gabriela, de Jorge Amado. Em um dos trios elétricos está a atriz Uzo Aduba, que interpreta a personagem Crazy Eyes, da série “Orange is the new black”, que retrata a vida de mulheres negras e lésbicas numa prisão. A funkeira Valesca Popozuda deve fazer um show no mesmo carro.

Como exemplo da onda conservadora na política, foram criticados o projeto de lei que ficou conhecido como “cura gay”, do deputado João Campos (PSDB-GO), que prevê tratamento psicológico a homossexuais, e o projeto que cria o Dia do Orgulho Hétero, de autoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Também foram citados comentários homofóbicos publicados nas redes sociais nos últimos dias, após a veiculação de um comercial da marca O Boticário, que mostra casais gays trocando presentes.

— Nos últimos anos temos visto um retrocesso no campo político, colocando em risco tudo o que conquistamos nos últimos anos — disse o presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT, Fernando Quaresma. — Nós ocupamos a Paulista neste dia para pedir igualdade de direitos. Os heterossexuais já têm seus direitos garantidos. Ninguém é agredido por ser hétero. Não precisam de um dia.

A senadora Marta Suplicy, que deixou o PT recentemente, também participou da coletiva. Ela afirmou que tem enfrentado dificuldade para aprovar emendas ao texto da revisão do Código Penal com o objetivo de incluir a homofobia como crime específico. Apesar disso, ela defendeu o diálogo com essas forças.

Ativistas pelos direitos dos LGBTs levam cartazes para a 19ª Parada Gay de São Paulo – Miguel Schincariol / AFP

— Sem dúvidas está mais difícil [defender causas progressistas]. O Congresso é muito mais conservador. Mas ele reflete a sociedade. Na medida que houve, nos últimos anos, movimento a favor das liberdades individuais, agora há uma reação. Hoje, a onda conservadora é muito forte. Mas temos que conversar, não nos separar. Temos que ver até que ponto podemos caminhar juntos — opinou Marta.

Diretor da associação da Parada, Nelson Matias, criticou o crescimento das bancadas evangélicas e o aparecimento de líderes conservadores que se opõem às pautas dos homossexuais, como os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano (PSC-SP), além de Jair Bolsonaro (PP-RJ).

— Esses políticos já mostraram a que vieram. E nós? Temos que nos juntar para lutar contra isso — sugeriu Matias.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), lembrou que a Constituição já prevê que o Estado é laico.

— Fomentar a raiva contra qualquer grupo ofende a nossa Constituição. Temos que ser contra qualquer tipo de intolerância — ressaltou Haddad.

Aberta a militantes LGBT, o prefeito Haddad e o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) foram cobrados pelos participantes. Haddad foi questionado por cortar verbas da parada e por não receber o movimento. Segundo os organizadores, a verba da prefeitura teve corte de 30%. O prefeito diz que os cortes só afetaram o camarote da Prefeitura, que era pouco utilizado, e uma feira cultural, que foi bancada pelo governo estadual. Ainda segundo Haddad, foram feitas 13 reuniões com o movimento LGBT. Ele se comprometeu a receber o grupo semana que vem.

Já o governador Alckmin foi cobrado sobre uma resposta no caso da travesti Verônica Bolina, que teria sido agredida dentro da carregarem do 2º DP, depois de bater em uma idosa de 73 anos. O governador disse que o caso está sendo apurado. Ele também foi perguntado sobre o investimento do estado para a população LGBT. Ele respondeu que a verba é dividida em várias secretarias.

Casal troca beijo sob bandeira que é símbolo do orgulho LGBT – Miguel Schincariol / AFP

PUNKS E SKINHEADS TAMBÉM PARTICIPAM DO EVENTO

Um grupo de cerca de 20 punks e skinheads anarquistas foi à Parada protestar contra homofobia. “Eu amo homem, amo mulher. Tenho direito de amar quem eu quiser”, gritava o grupo.

O evento deste ano não tem a presença da Central Única dos Trabalhadores de São Paulo (CUT-SP), que participa desde o primeiro ano. A central sindical alega, em nota, que “a Associação da Parada insiste em cobrar taxas abusivas para que as organizações participem do evento” e acrescenta que “a cobrança é ilegal e constava, inclusive, na minuta de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a Prefeitura e a associação”. Para a CUT-SP, os organizadores, que já recebem “milhões de reais em recursos da Prefeitura” tiveram atitude “antidemocrática e autoritária”.

Questionado sobre críticas feitas pela CUT à organização da Parada, Fernando Quaresma afirmou que a central sindical não participa da passeata este ano porque perdeu o prazo de inscrição — e não porque tinha que pagar uma taxa, como foi divulgado.

— Temos uma regra que é receber as inscrições dos participantes até dia 15 de maio. A CUT mandou a inscrição no dia 18. Não podemos abrir exceção para um grupo — explicou Quaresma.

O Globo