Países muçulmanos criticam nova charge de Maomé em Charlie Hebdo

PAÍSES MULÇUMANOS 1A publicação da edição histórica do semanário satírico Charlie Hebdo com um novo desenho de Maomé na capa, uma semana após o atentado contra a redação do jornal, provoca reações de condenação em países muçulmanos. Um tribunal da Turquia ordenou o bloqueio de sites que reproduzirem a capa de Charlie, considerada ofensiva aos fiéis. Autoridades religiosas do Egito, Irã e Palestina também se manifestaram.

 A tiragem excepcional de 1 milhão de exemplares de Charlie Hebdo, em homenagem aos 12 mortos no atentado, esgotou em poucos minutos. A edição “dos sobreviventes”, como está sendo chamada, foi traduzida em cinco línguas: inglês, espanhol e árabe, para as versões digitais, e também em italiano e turco na versão impressa. A capa traz uma caricatura do profeta Maomé com uma lágrima, segurando o cartaz “Je suis Charlie” (“Eu sou Charlie”) e o título: “Tudo está perdoado”.

Ao contrário da imprensa francesa e europeia, a maioria dos grandes jornais de países muçulmanos da África e da Ásia não reproduzem a capa de Charlie Hebdo em respeito à proibição, para os muçulmanos, de representar o profeta. Rara exceção é o jornal turco de oposição Cumhuriyet, que publica boa parte da edição especial.

O líder religioso dos palestinos Mohammad Hussein denunciou um novo insulto aos muçulmanos, mas rejeitou o recurso à violência.

O site de informação conservador iraniano Tabnak afirma que Charlie insulta novamente o profeta. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammad Jawad Zarif, afirmou que o diálogo de seu país com os países ocidentais seria mais fácil “se a sensibilidade dos muçulmanos fosse respeitada”. A declaração aconteceu pouco antes de Zarif iniciar uma reunião, em Genebra, com o secretário de Estado americano, John Kerry, sobre um futuro acordo nuclear entre o Irã e as grandes potências.

A principal autoridade do Islã no Egito, Shawqi Allam, disse que a charge “é uma provocação injustificada aos 1,5 bilhão de muçulmanos em todo o mundo”. A principal autoridade sunita, Al-Azhar, baseada também no Cairo, declarou que a caricatura “vai atiçar o ódio”.

O grupo Estado Islâmico considera “extremamente estúpida” a publicação das novas caricaturas.

A união mundial das autoridades religiosas muçulmanas diz que a publicação só dará credibilidade à tese de que o Ocidente é contra o islamismo. Na França, os responsáveis muçulmanos pediram calma.

Franceses fazem fila nas bancas

Os franceses fizeram fila para comprar o semanário desde as primeiras horas da manhã. Para atender à demanda, a tiragem inicial de 1 milhão de exemplares foi ampliada para 3 milhões e depois para 5 milhões, que chegarão às bancas até o dia 19 de janeiro. Com a distribuição de Charlie esgotada, muitos franceses compraram outro semanário considerado alternativo e satírico, “Le Canard Enchainé”, que também sofreu ameaça na sexta-feira (9) de que seria o próximo alvo dos terroristas.

O cartunista Luz, autor da capa histórica, explicou a escolha: “Não era a capa que muitas pessoas gostariam que fizéssemos. Mas é a capa que nós decidimos fazer. Não é a capa que os terroristas gostariam que fizéssemos, porque aqui não tem terroristas. Só um homem que chora, Maomé… Sinto muito, nós voltamos a desenhá-lo, mas o Maomé que desenhamos é um homem que chora antes de qualquer coisa.”

A capa de Charlie Hebdo não poderá ser vista em todo o mundo ocidental. Nos Estados Unidos, onde a sátira religiosa é tabu, e na maioria dos jornais britânicos, a charge não será reproduzida. No entanto, Washington fez questão de afirmar o “apoio absoluto ao direito de Charlie Hebdo publicar o desenho”.

 

RFI