“Perdi meu filho de 23 anos para um vírus. Vacinem-se. Gripe mata”

“Perdi meu filho de 23 anos para um vírus. Vacinem-se. Gripe mata”

A servidora pública Thâmar de Castro Dias perdeu o filho mais velho, Lucas (foto em destaque), 23 anos, para a gripe H1N1. Entre a manifestação dos primeiros sintomas da doença – no fim da tarde de domingo de 26/05/2019 – e a declaração de morte, na segunda-feira à tarde, foram menos de 24 horas. A virulência com a qual a doença se desenvolveu no corpo do jovem surpreendeu até a equipe médica. “Meu filho era absolutamente saudável, o que aconteceu não tem explicação, atribuo apenas à fragilidade que é a vida”, diz a mãe.

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal, 12 pessoas morreram em consequência de gripes neste ano. Do total, três foram por conta do influenza A (H1N1), as demais mortes estão relacionadas a outras cepas do vírus.

O infectologista Alberto Chebabo, do grupo Exame, explica que o desfecho da história de Lucas foge ao comum, pois, na maioria das vezes, a doença evolui para a cura entre uma semana e 10 dias, a partir da manifestação. De acordo com as estatísticas médicas, sem enfermidades associadas e fora do grupo de risco (idosos, grávidas e crianças até cinco anos), a chance de morrer por causa do vírus é bastante baixa. No entanto, ele ressalta a importância da vacinação como medida de proteção coletiva.

Chebabo destaca que a influenza é de fácil contágio e a vacinação anual é a única maneira de contê-la. “Quanto mais gente se vacina, menos pessoas ficam doentes. É uma espécie de muro, o vírus perde a capacidade de circulação”, explica. A vacina da gripe é fornecida na rede pública para os grupos de risco – gratuita, protege contra dois vírus influenza A (H1N1 e H3N2) e um cepa influenza B. Na rede particular, além desses mencionados, há proteção adicional a mais um cepa influenza B.

A mãe de Lucas tem se dedicado a conscientizar os que estão próximos, repetindo aos amigos dele sobre a importância da vacina. “Eu digo a todos: vacinem-se, gripe mata.” A seguir, o depoimento de Thâmar:

“O Lucas tinha 23 anos, fazia ciência política na UnB e direito no UniCeub. Era um rapaz maravilhoso, cheio de amigos, grande companhia para o irmão de 15 e para mim. Na noite de domingo (26/05/2019), antes de dormir, ele me disse ‘Mãe, vou gripar’. Dei um tylenol e o meu filho foi deitar.

Na madrugada de segunda (27/05/2019), ele acordou passando mal, suava muito e estava frio. Eu lembrei da minha infância. Meu tio era médico, morava no interior do Piauí e a casa dele era o pronto-socorro da cidade. Ele havia nos orientado que, se ele não estivesse em casa e alguém chegasse suando e com a temperatura baixa, deveríamos encontrá-lo imediatamente.

Por causa do meu tio, eu sabia que o estado de saúde do Lucas era grave. Fomos imediatamente para o Hran, o hospital público mais perto de casa. Eu sou funcionária da Câmara dos Deputados, tenho plano de saúde. Mas, àquela hora e diante daquela emergência, achei que o hospital público era o melhor local.

O SUS não é importante apenas para quem não tem plano de saúde, é importante para todos nós. No hospital público, você encontra equipes de qualidade. Eu sabia que lá lutariam pela vida dele e foi assim. Mas, seis horas depois de termos dado entrada no hospital, meu filho morreu.

A equipe que o atendeu chorou junto comigo, todos estavam estupefatos também. Lucas era saudável, frequentava academia, se alimentava direito, estava vacinado para várias doenças e 12 horas antes de morrer não apresentava sintomas. Foi um choque. A princípio, os médicos acharam que o hantavírus havia provocado a infecção que o vitimou, mas, para um diagnóstico preciso, seria necessário examinar os restos mortais dele.

Eu fiz questão do diagnóstico, de saber por que meu filho morreu, por uma questão até de saúde pública. Como uma pessoa saudável de 23 anos morre de uma hora para outra? O diagnóstico chegou há duas semanas, meu filho morreu em consequência do vírus H1N1. Há cinco anos, nossa família toma religiosamente a vacina contra gripe. Neste ano, ele se vacinaria na semana seguinte ao que aconteceu.

Foi uma fatalidade – que nos dá noção do quanto a vida é frágil.

O que dizer disso? É indizível. A dor é física, é como se eu fosse infartar. A dor é emocional, como se eu fosse me desintegrar. Eu me sinto como uma geleca.

Cerca de mil pessoas estiveram no enterro dele, muitos amigos, dos diferentes círculos que ele frequentava. E muitos amigos da família. Eu dizia a todos, especialmente aos mais jovens, aos amigos dele, tomem a vacina, tenham responsabilidade com o coletivo, quanto mais pessoas se vacinarem, menos este vírus circula. Meu filho foi derrotado por um vírus. Eu fui derrotada por um vírus. Gripe mata. Por favor, avisem que gripe mata.”

Thâmar de Castro Dias, mãe de Lucas e de Bruno, é servidora pública

Metrópoles