Possível adesão do Brasil à OTAN: EUA estariam precisando de ‘arreio’ para América Latina?

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse considerar a entrada do Brasil na OTAN. Especialistas russos comentam que consequências essa decisão poderia ter para toda a América Latina e para paz global.

Durante coletiva de imprensa após encontro com Jair Bolsonaro, presidente norte-americano, Donald Trump, indicou possibilidade da entrada do Brasil na OTAN. “Eu disse ao presidente Bolsonaro que também pretendo indicar o Brasil como um grande aliado extra-OTAN, ou até mesmo começar a cogitar como um integrante da OTAN. Eu tenho que conversar com muita gente, mas talvez se tornar um integrante da OTAN seria um grande avanço para a segurança e cooperação entre nossos países”, declarou Trump.

Em entrevista ao serviço russo da Rádio Sputnik, o especialista russo em assuntos internacionais Vladimir Olenchenko, comentou a declaração do presidente norte-americano.

“Isso levanta questões, porque a OTAN é uma organização do Atlântico Norte, criada para unir os EUA e a Europa, como organização de defesa”, explicou o analista, sublinhando que a transformação da OTAN em uma organização global viola o equilíbrio de poder e tem caráter ameaçador.

U.S. President Donald Trump speaks while meeting with Brazilian President Jair Bolsonaro in Oval Office of the White House in Washington, U.S., March 19, 2019.

“Trata-se de uma violação da arquitetura de segurança global, que deve ser levada muito a sério” e sem possibilidade de prolongamento da tendência, acrescentou o analista.”Acredito que essas declarações [de Trump sobre a possível entrada do Brasil na OTAN] refletem o desejo dos EUA de manterem liderança e expandi-la. Eu acredito que eles estejam precisando de um arreio. A Venezuela e outros países, Nicarágua e Cuba, mostraram que não querem aceitar a doutrina Monroe, ou seja, uma doutrina de dominância dos EUA na América Latina com [os EUA] decidindo políticas interna e externa por eles”, considera Olenchenko, sublinhando que a OTAN poderia ser usada pelos EUA para fortalecer posições na América Latina.

O vice-presidente do Comitê de Defesa da Duma do Estado (câmara baixa do parlamento russo), Yuri Shvytkin, sublinhou que a decisão sobre a entrada do Brasil na OTAN será tomada não apenas pelos EUA e, particularmente, por Trump, mas por todos os países que fazem parte da Aliança.

Jair Bolsonaro se reúne com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca

“Acredito que a adesão [do Brasil à OTAN] é possível, mas pouco provável. Um dos objetivos principais da OTAN é defesa. Infelizmente, hoje em dia, o objetivo não é mais defesa, mas ataque com política e retórica agressivas e ações correspondentes. A possível entrada do Brasil na Aliança violaria equilíbrio em todo o mundo e levaria a um confronto na região do Brasil, o que, na minha opinião, é inaceitável”, explicou.O presidente brasileiro realizou visita oficial de três dias aos EUA. Jair Bolsonaro já assinou alguns acordos que aprofundam a cooperação entre os dois países. Na reunião com homólogo norte-americano na terça-feira (19), foram discutidos assuntos internacionais, entre eles cooperação comercial bilateral, crise da Venezuela, e fortalecimento das relações entre Washington e Brasília.

Sputnik