Roteiro de Borges e Casares, roubo de negativos e censura transformaram filme argentino em cult.

borges e cesáriosLançado em 1969, ‘Invasão’, do cineasta Hugo Santiago, mostra a resistência de uma cidade fictícia idêntica a Buenos Aires que é atacada por misteriosos invasores dispostos a dominar a população e tomar o poder

RIO — Os militares que tomaram o poder na Argentina no golpe de 1976 não gostaram das alegorias de um longa-metragem celebrado pela crítica local como um dos melhores já feitos no país. O filme, que recebeu o sugestivo título de “Invasão”, mostra como cidadãos da fictícia Aquilea resistem aos ataques de um estranho grupo que tenta tomar a cidade para si. Metáforas com a Guerra de Troia à parte, Aquilea é em todos os sentidos uma representação de Buenos Aires, com direito a um mapa da capital argentina exibido na tela, o que irritou ainda mais os militares.

Assim, por pressão do governo, “Invasão” foi proibido nos cinemas e na TV. Seus negativos originais foram ainda misteriosamente roubados do laboratório em 1978, para nunca mais serem encontrados. Tratava-se de uma retaliação a uma produção considerada ofensiva ao regime — mas uma produção lançada em 1969, sete anos antes do golpe que depôs Isabelita Perón e deu início ao período mais obscuro da História argentina.

Para completar o absurdo da censura contra “Invasão”, o filme teve seu argumento escrito por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, escritores já celebradíssimos naquele momento e que nem de longe mantinham ligações com movimentos de esquerda.

— Quando fizemos o filme, não havia grupos de resistência conhecidos na Argentina. Mas os anos 1970 tornaram o ambiente mais pesado no país — afirma, aos 75 anos, o diretor Hugo Santiago, na época um jovem de 29 que estreava em longas-metragens com “Invasão”. — Seria apenas um filme do gênero fantástico, sobre uma Buenos Aires mítica. Mas a fantasia irritou os militares no poder.

Pois o clássico censurado será exibido nesta terça-feira, dia 18 de agosto, no Rio, abrindo a mostra Argentina Rebelde, às 18h30m, na Caixa Cultural (veja a programação completa). O momento de sua exibição é oportuno porque Santiago está perto de terminar o roteiro de “Adiós”, produção que completará a trilogia iniciada por “Invasão” e seguida por “Las veredas de Saturno” (1985), este último sobre exilados de Aquilea vivendo em Paris.

— “Adiós” será um filme sobre a possibilidade, ou impossibilidade, de regresso a um país de que se esteve longe por muitos anos. Quem está exilado sempre pensa em retornar. Os brasileiros sabem bem como é isso, quase todos eles voltaram. Vocês pareciam ter um apego maior à terra, maior do que os argentinos e qualquer outra nacionalidade. Lembro quando conheci Glauber em Paris e falamos sobre isso — explica Santiago, ele próprio um exilado que mora em Paris desde a década de 1970. — Em 1985, o Claude Mauriac (jornalista e crítico francês, filho do Nobel de Literatura François Mauriac) escreveu um artigo em que citava vários acontecimentos políticos recentes em diversos cantos do mundo, como os golpes, as revoluções e as prisões. E ele terminava o artigo descrevendo como tinha visto todos aqueles acontecimentos, anos antes, em “Invasão”.

O ambiente durante a produção do longa-metragem, em 1969, também não era dos mais amigáveis. Desde 1966, a Argentina era presidida por Juan Carlos Onganía, general que assumiu o poder em decorrência de um golpe militar. A censura, contudo, não era sistemática como aconteceria no golpe de 1976, o que permitiu que Santiago fizesse seu filme.

O cineasta vinha de uma temporada na França, onde chegou a ser assistente de direção de Robert Bresson em “O processo de Joana D’Arc” (1962). Teve, então, a ideia para um filme sobre invasores em Buenos Aires e procurou Borges, que havia sido seu professor na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires.

— Foi o Casares que me incentivou a procurar o Borges. Eu era ambicioso e queria tê-los comigo. Seria um luxo fazer um filme assinado pelos dois — lembra Santiago. — E o Borges, apesar de já ser conhecidíssimo, se comportou como um roteirista. Não quis fazer um texto literário, ele entendeu que o roteiro era uma forma de se chegar ao filme. Passamos um ano inteiro trabalhando juntos.

Borges (“Ficções”) e Casares (“A invenção de Morel”) eram amigos e tinham uma produção literária conjunta, com notáveis contos policiais e fantásticos escritos a quatro mãos. Juntos, eles também foram responsáveis por três roteiros cinematográficos além de “Invasão”: “El paraíso de los creyentes”, nunca filmado; “Los orilleros” (1975), de Ricardo Luna; e “Les autres”, mais uma produção de Hugo Santiago, esta rodada na França, sobre a busca de um homem para compreender o suicídio do filho.

A participação de Borges em “Invasão” tornou a censura mais estranha. O autor argentino não tinha uma tradição de escritos políticos e, mais do que isso, foi opositor de ideologias de esquerda, entre elas o peronismo derrubado pelo golpe de 76. Até hoje, acredita-se que Borges não foi laureado com o Nobel de Literatura graças a seu apoio a Augusto Pinochet, ditador chileno entre 1973 e 1990.

Depois da proibição de 1976 e do roubo de seus negativos, “Invasão” só voltou a circular no fim da década de 1990, quando novas cópias foram produzidas a partir de uma restauração de rolos descobertos em cinematecas. Um DVD foi lançado somente em 2008, na Argentina, e o longa que até então era considerado um dos maiores cults do cinema hermano pôde, enfim, ser visto pelas novas gerações.

—“Invasão” é o primeiro filme moderno do cinema argentino — explica Roger Koza, crítico do país que virá para a mostra da Caixa Cultural. — E há um paradoxo em “Invasão”. Ele não nasceu como um filme político, a política não estava na esfera conceitual de Borges e Casares. Ainda assim, é estritamente político e de certa forma antecipou o espírito da década seguinte. Ele anteviu os movimentos de jovens pegando em armas para enfrentar a ditadura.

“Invasão” também é notável por ter o trabalho do diretor de fotografia Ricardo Aronovich, um mito do cinema argentino cujo currículo está recheado de produções internacionais de sucesso. São de Aronovich, por exemplo, as fotografias de “Os fuzis” (1964), de Ruy Guerra; “Sopro no coração” (1971), de Louis Malle; “Providence” (1977), de Alain Resnais; “Desaparecido” (1982), de Costa-Gavras; e “O baile” (1983), de Ettore Scola.

Para “Invasão”, Aronovich utilizou uma fotografia em preto e branco com contrastes fortes e luz natural nas tomadas externas. O filme apresenta as ruas vazias de Aquilea (o termo se refere a Aquiles, figura heroica da Guerra de Troia), numa representação da desolação de Buenos Aires.

— Eu me considero um narrador fantástico. Uso a fantasia como uma forma de penetrar no real — diz Hugo Santiago, que hoje tem cerca de 15 filmes na carreira, inclusive o documentário “Maria Bethânia do Brasil”, feito em 2001. — Gosto de brincar que sou carioca. Quando fizemos o filme com a Bethânia, passei um bom tempo entre Rio e Bahia.

OBRAS DE MARTEL E COZARINSKY

A proposta da mostra Argentina Rebelde, desta terça-feira (18 de agosto) até dia 30, na Caixa Cultural, é apresentar um panorama do cinema daquele país a partir dos anos 1940. Serão 17 filmes exibidos, quase todos em película, alguns raros, como é o caso dos longas “Invasão” e “… (reticências)”.

Este último foi dirigido pelo escritor e cineasta Edgardo Cozarinsky e lançado no Festival de Cannes de 1971. Sua trama mostra como um padre de extrema direita percebe — a partir de conversas com militares, uma família burguesa e um sacerdote de um país de terceiro mundo — que sua ideologia está ultrapassada. “… (reticiências)” nunca estreou comercialmente e foi dado como perdido por muitos anos, até ser redescoberto e restaurado em 2011.

Também pela mostra, será exibido o curta “Rei morto” (1995), que Lucrecia Martel dirigiu para a coletânea “Histórias breves”. Um dos primeiros filmes da cineasta celebrada por “O pântano” (2001) e “A menina santa” (2004), “Rei morto” conta a história de uma mulher que foge de um povoado, deixando o marido e levando os três filhos.

A mostra terá, ainda, debates e apresentações dos críticos argentinos Alejandro Cozza e Roger Koza, da professora e escritora argentina Ana Laura Lusnich, do sociólogo e professor peruano Isaac León Frías e do crítico brasileiro José Carlos Avellar. A curadoria é do pesquisador Victor Guimarães.

O Globo