A trajetória do ex-senador Pedro Jorge Simon, que completa 85 anos

Se todos fossem iguais ao senador Pedro Simon, como o Brasil seria melhor

mosaico-simonA trajetória do ex-senador Pedro Jorge Simon, que completa 85 anos neste sábado (31), é um raro exemplo de dignidade, ética e correção no cenário político brasileiro. Ao longo dos 65 anos de vida pública, seguiu um percurso que inspira respeito e admiração entre seus pares e a população. Participou de diferentes momentos da história política do país, e ganhou destaque pela postura combativa e comprometida, ciente do poder de um debate eficiente. Surpreendeu ainda pela escolha por uma vida simples, de fato, e deixou sua contribuição em diversas lutas, mesmo as mais complexas, como contra a corrupção. Ao sair do Senado, após quatro mandatos consecutivos, deixou claro que sua intenção agora é se unir à luta da juventude.

Durante a carreira, Simon foi vereador, deputado estadual, governador do Rio Grande do Sul e ministro. Coordenou a Campanha da Anistia, participou da coordenação da Aliança Democrática, com Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, José Sarney, Aureliano Chaves e Marco Maciel, que lançou Tancredo Neves à presidência. Quando ministro da Agricultura do Governo Sarney, entre 1985 e 1986, lançou um programa de cisternas contra a seca no Nordeste. Mais tarde, como senador, coordenou e integrou a CPMI que levou ao impeachment do presidente Collor, e também coordenou e integrou a CPI dos Anões do Orçamento, que pediu a cassação de 17 deputados e um senador, e enviou os nomes de outros 12 envolvidos, que não eram parlamentares, ao Ministério Público.

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“Podem dizer que colocaram nomes demais e também podem dizer que há nomes de menos. Só não podem dizer que a CPI agiu de má-fé”, disse Simon, em janeiro de 1994, sobre a CPI dos Anões do Orçamento. O ex-deputado Marco Maciel também comentou, na ocasião, sobre o resultado: “Nem no AI-5 saiu-se com uma lista de corruptos tão grande”.

Em uma tentativa de resumir seu perfil, poderíamos dizer que é um “político de passado limpo”, franciscano. Em 2000, fez voto de pobreza e se tornou membro da Ordem Terceira de São Francisco, a qual também pertenceu Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, Dom Pedro I e Dom Pedro II. Antes do voto de pobreza, contudo, já era pública a relação de Simon com a verba pública, vide sua escolha por nunca receber pensão de ex-governador do Rio Grande do Sul e do antigo Fundo de Pensão da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Naquele mesmo ano, quando estava com 70 anos de idade, o então senador percorreu a pé, em seis dias, 136 quilômetros entre Fortaleza e Canindé, no sertão cearense, com outros 500 peregrinos. Se alimentou de pão, água, leite e de uma sacola de bananas e maçãs que ganhou durante o trajeto, que foi repartida com os colegas de caminhada. Ele já tinha feito romarias na França, no México, em Portugal e Jerusalém. No Ceará, perdeu 3 quilos, torceu o pé e tomou banho de caneca em pias de restaurantes e escolas. “No sertão, me senti mais perto de Deus”, disse em entrevista.

Para o deputado federal Arolde de Oliveira (PSD-RJ), trata-se aqui de uma das “maiores referências de austeridade e seriedade que já existiu na política brasileira”, lembrando que Simon exerceu diferentes cargos públicos, como governador do Rio Grande do Sul, sem nunca sair da linha de austeridade no exercício deles. “É um homem de extrema confiança“, define.

O senador eleito Ronaldo Caiado (Democratas-GO) também destaca a coerência em que Simon se pautou ao longo dos mandatos, servindo de inspiração não só ao povo do Rio Grande do Sul. “Ultrapassou fronteiras e se tornou exemplo em todo o País. Num momento em que vivemos uma grave crise institucional, com a falta de ética e modos na política, Simon fará falta ao parlamento brasileiro. Tenho certeza que os seus 65 anos de vida pública marcaram a história do Brasil.”

Claudio Cajado (DEM-BA), deputado federal eleito, por sua vez, acredita que Simon é um dos maiores defensores do Brasil que ele já conheceu. “Pedro Simon é um dos maiores defensores do Brasil que já conheci. Sua atuação política na luta pela igualdade social e no combate à corrupção é admirável. Além de ser um dos ícones na resistência à ditadura. Pessoalmente, tenho sua carreira como exemplo e inspiração”.

Cajado salienta também que Pedro Simon é merecedor não apenas de parabéns, mas de reverência política, própria aos grandes homens. “Tenho certeza de que o senador gaúcho ainda vai fazer muito pelos cidadãos deste país fora do cenário político. O nome de Pedro Simon já está gravado na nossa história e, para sempre, seus ensinamentos continuarão ecoando nos corredores do Congresso Nacional.”

O deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ) também ajuda a traduzir o significado da atuação de Simom ao longo de sua carreira política. “Sua trajetória é digna de admiração. Mas, aqui pra nós, Pedro Simon adquiriu uma dimensão superior: digna apenas àqueles poucos que são respeitados por todos!”

Antônio Imbassahy (PSDB-BA), deputado federal, fortalece a unanimidade quando se trata do ex-senador, frisando que o político não teve receio em enfrentar riscos ao se posicionar com firmeza nos momentos mais duros da história brasileira, sempre fundamentado pela coerência e na lucidez. Imbassahy também ressalta a defesa ardorosa e inarredável da democracia, que muitas vezes fez com que o político fosse perseguido por suas opiniões, que não poupam sequer aliados de sua análise precisa, justa e sincera.

“Simon sempre será uma referência na política, especialmente para as novas gerações, por sua decência, preparo e honradez”, declarou Imbassahy. “Independentemente do caminho escolhido por ele para seus próximos anos, Simon tem o dever de manter-se presente no cotidiano nacional – por ter ainda muito a contribuir com o país e para sua população”, completou.

No discurso de despedida ao Senado em dezembro, quando aplausos de pé irromperam duas vezes — uma delas fez Simon se emocionar –, ele destacou que seus planos futuros se fundem com as lutas e conquistas, passadas e futuras, da juventude. Em entrevista ao JB, ele já havia adiantado a intenção de percorrer o país unido à luta dos jovens.

“Vou caminhar por este imenso País e semear minhas ideias nos campos fecundos do saber de uma juventude que clama por mudanças. Não mais uma juventude de palavras silenciadas pela repressão. Agora, elas são impelidas pela indignação. A indignação com a impunidade que alimenta a corrupção. A mesma corrupção responsável pelas nossas maiores mazelas”, disse na despedida ao Congresso.

A força que a população mostrou ter com as manifestações de junho de 2013, e em outros momentos da história brasileira, serviram de inspiração ao parlamentar. “Eu pretendo, se Deus me ajudar e se eu tiver credibilidade, percorrer o Brasil, andar pelo Brasil, andar com os jovens, nas universidades, participar dessa movimentação e fazer um outro tipo de trabalho, que é mais ingênuo, mas eu me identifico mais.” Segundo ele, esse movimento de união com a juventude seria feito não em uma postura impositiva, mas de aprendizado e ajuda. “Eu pretendo fazer isso, dar a minha colaboração. Modesta, singela, mas no sentido de fazer essa caminhada.”

Como homem público, Simon vivenciou o governo Juscelino Kubitschek, a renúncia de Jânio Quadros, a ditadura militar e o governo Itamar Franco, após o impeachment de Fernando Collor. Advogado e professor universitário, Simon estreou na política em 1954 em sua cidade natal, Caxias do Sul (RS), como vereador pelo PTB. Foi deputado estadual durante 16 anos e, como presidente do MDB gaúcho, organizou a oposição ao regime militar. Mais tarde, como um dos líderes do PMDB, coordenou a campanha das “Diretas, Já” e percorreu o Brasil com Teotônio Vilela promovendo a luta pela anistia. O movimento exigia cinco pontos, eleições diretas para presidência; liberdade de imprensa; fim da tortura; defesa da anistia aos presos e exilados políticos; e instalação da Assembleia Nacional Constituinte.

Em 1987, foi governador do Rio Grande do Sul, quando implantou eleição direta para diretores de escolas, construiu estradas e patrocinou a compra de terras pelo Estado para implantar a reforma agrária. Como senador, participou de todas as principais Comissões Parlamentares de Inquérito do Congresso, com destaque para quatro delas — CPIs sobre PC Farias, que levou ao impeachment de Collor, a dos ‘Anões do Orçamento’, a da Reforma do Judiciário, que levou à cassação de Luiz Estevão, e a do Sistema Financeiro. Como líder do Governo Itamar Franco, no Senado, articulou a aprovação do Plano Real no Congresso.

É autor de mais de uma centena de livros sobre ética, cidadania, moralidade, democracia e combate à corrupção. Cursou Ciências Jurídicas na Faculdade de Direito da PUC de Porto Alegre, pós de Economia Política no Instituto de Economia da PUC, e especialização em Economia Política e Direito Penal na Universidade de Paris – Sorbonne. É professor licenciado de Economia Política da Faculdade de Direito de Caxias do Sul, e professor licenciado de Sociologia da Faculdade de Caxias do Sul.

A política esteve na vida de Simon desde que era um “guri”, conforme contou ao jornalista Mauro Santayana, no JB, em 2010. Quando entrou na faculdade de Direito, já era dirigente da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande e depois virou presidente do Diretório Acadêmico. No início do governo de Juscelino, em 1956, assumiu interinamente a presidência da UNE, em processo de intervenção na entidade. Também foi diretor do primeiro Curso de Formação de Líderes Sindicais realizado em Porto Alegre. Nesta época, ela já conhecia uma de suas maiores referências, “o grande homem público e de fé cristã”, Alberto Pasqualini.

Cinquenta anos após a morte de Pasqualini, em 2010, Simon lançou um livro sobre ele, Atualidade de Alberto Pasqualini, na tentativa de mostrar que o ideário do formulador do trabalhismo brasileiro continua presente. “Homem muito à frente do seu tempo, Pasqualini foi atacado tanto pela direita quanto pela esquerda, já que viveu numa época de forte divisão ideológica, que se acirrou após o final da 2ª Guerra Mundial. Sem jamais cair no canto de cisne dos que defendiam regimes autoritários, de direita ou de esquerda, Pasqualini pregou sempre, com a mesma ênfase, a defesa da liberdade e o valor do trabalho e dos trabalhadores”, argumenta na apresentação do livro, deixando pistas sobre o tamanho da influência de Pasqualini em seu trabalho político.

Em 1994, Simon já tinha publicado Alberto Pasqualini – Obra social e política, um trabalho de resgate da obra do líder político, que também foi advogado, professor e sociólogo. Na entrevista a Santayana, ele contou que, quando era aluno de Pasqualini, encontrava-se com ele três vezes por semana, em conversas que chegavam até a madrugada. “Não lhe nego uma verdade: Pasqualini me fez completa lavagem cerebral durante aqueles poucos anos. Decidi segui-lo em tudo, do Evangelho de Cristo, como ele nos explicava, em linguagem simples, ao catecismo democrático. Com ele aprendi a não confiar nos rótulos, a examinar sempre os conteúdos doutrinários.”

Conforme ficou mais religioso, suas análises certeiras e duras, para alguns, foram ganhando outros ingredientes. Ainda hoje, contudo, ninguém escapa de sua análise sincera e consistente. Quando a igreja católica escolheu Jorge Mario Bergoglio para ser o novo papa, que viria a ser Francisco, por exemplo, ele fez sua análise: “Eu confesso que já tinha perdido minhas esperanças de que seria possível, nesta época, um Francisco nos dias atuais, naquilo que representa esse nome há oito séculos. Eu imaginava que o consumismo seria, mais dia menos dia, uma espécie de religião única e globalizada a mercantilizar inclusive a fé”.

Para Simon, a maior mazela do Brasil é a corrupção, vide as muitas tentativas de aprovação de uma CPI dos corruptores. Ainda nos anos 1990, ele foi autor do Requerimento de constituição da CPI dos Corruptores, para atingir os que realmente comandam esquemas ilícitos, e não apenas os sucumbem ao enriquecimento ilícito. “Eu estou no Congresso há 20 anos defendendo uma proposta de criar a CPI dos Corruptores, e não consigo. Várias vezes tentei, mas não consigo”, declarou ao Jornal do Brasil, em entrevista de junho de 2014. Um exemplo, indicou, seria a CPI da Petrobras, quando não quiseram chamar os grandes fornecedores da Petrobras para depor. “Mexer com corruptor é uma coisa que não acontece.”