Tenente chamada de 'amiga' por traficante é afastada do Segurança Presente

Tenente chamada de ‘amiga’ por traficante é afastada do Segurança Presente

A tenente Adriana da Silva Góes Vista, denunciada pelo Ministério Público na semana passada por integrar uma quadrilha de PMs que recebia propina de traficantes, foi afastada do programa Segurança Presente. Nos últimos dois anos, ela passou pelas bases da Lagoa, Leblon, Méier e Tijuca do projeto. De acordo com o boletim interno da PM de ontem, Adriana foi transferida para a Diretoria Geral de Pessoal (DGP), conhecida como a “geladeira” da corporação.

A oficial foi denunciada à Justiça, junto com outros oito agentes, por crimes cometidos entre 2014 e 2015, quando os policiais eram lotados no 9º BPM (Rocha Miranda). Na semana passada, o EXTRA revelou que, segundo a investigação do MP e da Corregedoria da PM, os agentes — sete deles oficiais — recebiam propina de traficantes dos morros da Serrinha, Jorge Turco e do Complexo da Pedreira, todos na Zona Norte do Rio. Em troca, eles avisavam previamente os criminosos sobre operações do batalhão.

Traficantes armados tiraram fotos dentro de caveirão
Traficantes armados tiraram fotos dentro de caveirão Foto: Reprodução

Em conversas pelo aplicativo BlackBerry Message (BBM), interceptadas com autorização da Justiça, um traficante chama a tenente de “amiga”. “Vê com a amiga para tirar”, pede Walace de Brito Trindade, o Lacosta, chefe do tráfico da Serrinha, ao sargento Flávio Fagundes Padiglione. O traficante falava sobre uma ocupação da polícia na favela. “Vou passar a visão pra ela”, responde o agente.

Em outro diálogo, Lacosta reclama com o sargento que só foi informado de uma operação do batalhão na favela horas antes da incursão da polícia. O PM e o traficante acertam que só os agentes que passaram a informação sobre a operação receberiam a propina. “Passei a visão q essa semana vc não vai mandar nada para ninguém. É só o dele e da amiga, os outros de bico seco”, escreveu o sargento a Lacoste. As duas pessoas citadas são, segundo a investigação, o major Rodrigo Lavandeira Pereira e a tenente Adriana.

A juíza Ana Paula Monte Figueiredo Pena Barros, da Auditoria Militar, recebeu a denúncia do MP contra os policiais e determinou a suspensão das funções dos nove agentes. Oito deles, entre eles a tenente, vão responder pelos crimes de associação criminosa e corrupção passiva. Um foi denunciado por associação para o tráfico de drogas.

Página do caderno de anotações do tráfico
Página do caderno de anotações do tráfico

A investigação teve início quando a Corregedoria da PM descobriu que criminosos da Serrinha tiraram fotos armados num caveirão da unidade durante uma operação. Um caderno de anotações do tráfico da Serrinha, que faz parte da investigação, revela a partilha da propina entre os oficiais do 9º BPM. Na planilha, há a menção a repasses a capitães e tenentes, ao Grupo de Ações Táticas (GAT) — unidade operacional do batalhão — e à P2, o Serviço Reservado do batalhão.

Em nota, o programa Segurança Presente alegou que “após a corregedoria da PM ser comunicada oficialmente sobre a decisão judicial, o corregedor entrou em contato com o comandante da Operação Segurança Presente e informou sobre a necessidade do afastamento da oficial e o regresso dela à corporação”.