No discurso que Dilma a palavra "diálogo" foi citada cinco vezes

A tropa de Dilma para enfrentar um Congresso sem paz

congresso palco de guerraPALCO DE BATALHAS – Plenário da Câmara dos Deputados durante solenidade de posse da Presidente da República, Dilma Rousseff – 01/01/2015     (Waldemir Barreto/Ag. Senado)

No discurso que Dilma Rousseff fez na noite de 26 de outubro, depois de ser reeleita presidente da República, a palavra “diálogo” foi citada cinco vezes – duas a mais do que “Brasil”, por exemplo. “Vou estimular o mais rápido possível o diálogo e a parceria com todas as forças produtivas do país. Antes mesmo do início do meu próximo governo, prosseguirei nessa tarefa”, prometeu ela. O que se viu de lá para cá, entretanto, foi uma presidente isolada e silenciosa. No fim das contas, sem fazer o diálogo prometido, ela recorreu a um antigo método para escolher sua equipe e obter apoio no Congresso: a concessão de espaços na equipe ministerial, por critérios que são tudo menos meritocráticos. Pior: nas duas falas que fez ao tomar posse do novo mandato – no Congresso Nacional e no parlatório – o diálogo e qualquer aceno à oposição desapareceram.

O segundo mandato de Dilma Rousseff começou no dia 1º de janeiro com muitos problemas em potencial a resolver: o escândalo da Petrobras continua no noticiário, a economia patina e não há um grande projeto para impulsionar o governo. Além disso, o contínuo esvaziamento da base aliada nos últimos anos pode se agravar no próximo Congresso, no qual numericamente a oposição será maior e mais barulhenta do que foi no primeiro mandato de Dilma – e terá fortes líderes no Senado. O governo perdeu o apoio do PSB e já não pode contar com uma parte significativa dos votos peemedebistas e de integrantes do PP, siglas enroladas com o petrolão. O favorito para presidir a Câmara é um nome mal visto por ela: Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

As fragilidades da base governista aumentaram durante as eleições, com o choque de interesses entre o PT e muitos de seus aliados.Com isso, tornou-se necessário recompor a base de apoio no Parlamento. Mas, em vez do prometido diálogo e da busca pelo consenso, Dilma preferiu manter o loteamento de cargos.

O método é antigo, mas, com a redivisão de forças após as eleições, alguns grupos ganharam importância. É o caso do PSD. Presidido por Gilberto Kassab, o partido já comandava o Ministério da Micro e Pequena Empresa com Guilherme Afif Domingos; a nomeação, entretanto, não foi tratada como uma “indicação” da sigla, e sim uma escolha pessoal da presidente. Agora, com Kassab à frente de uma pasta importante como a as Cidades, assume em definitivo o rótulo de governista. Dono da quarta bancada da Câmara ao lado do PP, o partido de Kassab deve ser um aliado fundamental para o governo no próximo mandato.

O PRB, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, tem atualmente dez deputados e passará a ter 21, praticamente o mesmo número do DEM. O crescimento do partido também se refletiu no loteamento ministerial. A presidente retirou Aldo Rebelo do Esporte (PCdoB) para nomear o deputado George Hilton (PRB-MG), cuja biografia tem como ápice a expulsão do então PFL após ser flagrado com 600 000 reais em malas de dinheiro.

Pautas do Congresso em 2015

CPI DA PETROBRAS
Ao contrário das CPIs de 2014, a nova comissão parlamentar de inquérito, cuja criação é defendida por partidos oposicionistas, trabalharia em 2015 sob forte pressão política, já que o início do ano deve ser marcado pelas denúncias do Ministério Público contra políticos envolvidos no petrolão e sob o risco de cassação dos parlamentares suspeitos. A nova CPI funcionaria também sob nova presidência, já que o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), que presidiu as duas investigações este ano, foi nomeado ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

PACOTE ECONÔMICO
Depois de quatro anos com uma política econômica errática, a presidente Dilma Rousseff submeterá ao Congresso sucessivas propostas econômicas de redução de subsídios, políticas de contenção da expansão do crédito e controle de gastos públicos, além de temas espinhosos, como o reajuste de tarifas de energia elétrica e a possibilidade de retomada de taxas, como a Cide (imposto sobre combustíveis).

CÓDIGO PENAL
A mais nova atualização do Código Penal, cujo texto principal data de 1940, pode endurecer penas como a de homicídio e tornar crimes delitos como feminicídio, terrorismo e homofobia. Também podem ser contempladas no texto sanções penais para doação ilegal de campanha.

REFORMA POLÍTICA
Eterna promessa entre governantes dos mais diversos partidos, a reforma política pode ganhar novos debates no Congresso com a perspectiva de o Supremo Tribunal Federal (STF) concluir o julgamento e confirmar que empresas não podem financiar campanhas políticas. ​

O preço da lealdade não é segredo. O que garante a maioria governista no Congresso é a nomeação de indicados dos partidos para cargos estratégicos da administração pública – prática que ajuda a explicar praticamente todos os escândalos de corrupção da última década no governo federal.

“A presidente já demonstrou querer que o partido participe da administração”, diz o líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO). Hoje, ele mantém o presidente e o diretor financeiro da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Além de manter os cargos na cota da bancada, o parlamentar quer mais: “A ideia é ampliar o espaço que a bancada não teve no governo passado”, diz ele, cobrando a fatura do apoio dado à reeleição da presidente mesmo quando a direção do PTB fechou apoio a Aécio Neves (PSDB). As conversas já estão em andamento.

O líder do Pros na Câmara, Givaldo Carimbão (AL), prefere não falar em cargos: diz que a nomeação de seu correligionário Cid Gomes para a Educação tem pouca relação com o apoio ao governo no Congresso. “Cid tem aquele estilo que todo mundo conhece, mas para nós não influencia muito. Nossa relação nossa com a presidente a é muito estreita. Nós tivemos junto da campanha desde a fundação do partido até agora”, assegura. Criado em 2013, o Pros terá dez deputados na próxima legislatura e é outro partido que ganhou espaço na Esplanada.

Em fevereiro, tomarão posse 198 deputados novatos – quase 40% do total da Câmara. Só a partir de fevereiro, com a posse do novo Congresso, é que a real dimensão da nova base aliada ficará mais clara. A primeira tarefa será a aprovação do Orçamento de 2015 sem surpresas ou novos atrasos.

Outro aspecto negativo para o governo é a pulverização: nunca houve tantos partidos representados. São 26 com pelo menos um deputado federal. Ao todo, onze siglas tem até cinco parlamentares na Câmara. Quatorze possuem até até dez. Isso torna mais difícil a formação de um bloco unificado de apoio ao governo e aumenta o grau de imprevisibilidade das votações no Congresso.

Além de assegurar a fidelidade de partidos aliados, a presidente ainda busca coesão dentro do próprio PT. Nomeações como a de Kátia Abreu para a Agricultura desagradaram grande parte dos petistas, e parlamentares da sigla acreditam que Dilma os preteriu na montagem do ministério. Sem paciência para o contato direto com parlamentares, ela apoia Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara contra Eduardo Cunha (PMDB). O parlamentar é um nome experiente e respeitado pelos colegas. Mais do que isso: um dos raros deputados a ter interlocução com Dilma. Mas isso não é garantia de votos na Casa. Pelo contrário: o inteligente Chinaglia se irrita quando é apresentado como “o candidato do governo” porque sabe que isso o deixa mais distante da vitória. Sinal dos tempos.

PSD

Oficialmente, o partido adotou uma posição de independência no primeiro mandato de Dilma. Agora, com Gilberto Kassab no comando do Ministério das Cidades, a sigla adere à base aliada e começa o governo como peça indispensável no bloco governista. O PSD elegeu a quarta maior bancada da próxima legislatura, ao lado do PP. Serão 37 deputados e três senadores. Apesar de o apoio à presidente não ter sido unânime nas eleições, a presença do partido na condição formal de aliado de Dilma deve manter o PSD ao lado do Planalto.

Dez frases do discurso de Dilma que ficaram mal explicadas

Em discurso de posse, a presidente fez afirmações contraditórias sobre política e economia que exigem quase uma “tradução”

Dilma Rousseff acena para a multidão depois de ser empossada para seu segundo mandato de quatro anos, em Brasília - 01/01/2015

Dilma Rousseff acena para a multidão depois de ser empossada para seu segundo mandato de quatro anos, em Brasília – 01/01/2015 (Sergio Moraes/Reuters)

A presidente Dilma lançou mão de um discurso cheio de contradições durante sua posse, nesta quinta-feira. No campo econômico, tentou suavizar a necessidade de ajustes e sinalizou que a economia vai bem. Quando abordou o tema corrupção, colocou a Petrobras como vítima de um esquema criminoso — sem mencionar que seu partido foi um dos maiores beneficiados pela drenagem de recursos da estatal. Em sua oratória, há espaço amplo para contestação. Confira algumas frases que ficaram mal explicadas.

Petrolão

PetrolãoO que Dilma disse: “Temos muitos motivos para preservar e defender a Petrobras de predadores internos e de seus inimigos externos. Por isso, vamos apurar com rigor tudo de errado que foi feito e fortalecê-la cada vez mais. Vamos, principalmente, criar mecanismos que evitem que fatos como estes possam voltar a ocorrer“.
O que ficou mal explicado: Os predadores presos pela Polícia Federal foram nomeados para os cargos por indicações de partidos e políticos aliados do seu governo, especialmente PP, PMDB e PT.

Educação

O que Dilma disse: “Gostaria de anunciar agora o novo lema do meu governo. Ele é simples, é direto e é mobilizador. Reflete com clareza qual será a nossa grande prioridade e sinaliza para qual setor deve convergir o esforço de todas as áreas do governo. Nosso lema será: Brasil, pátria educadora!”
O que ficou mal explicado: A presidente escolhe como área prioritária um ministério que tirou do controle do seu partido para usar como moeda de troca eleitoral ao ex-governador do Ceará Cid Gomes, do Pros.

Jogos Olímpicos

O que Dilma disse: “Em 2016, os olhos do mundo estarão mais uma vez voltados para o Brasil, com a realização das Olimpíadas. Temos certeza que mais uma vez, como aconteceu na Copa, vamos mostrar a capacidade de organização do Brasil”.
O que ficou mal explicado: Se a organização dos Jogos é tão importante por que ela entregou o Ministério do Esporte ao PRB, especificamente a um ex-deputado flagrado com malas de dinheiro em um aeroporto?

PAC

O que Dilma disse: “Vamos lançar o 3º PAC, o 3º Programa de Aceleração do Crescimento e o segundo Programa de Investimento em Logística. Assim, a partir de 2015 iniciaremos a implantação de uma nova carteira de investimento em logística, energia, infraestrutura social e urbana, combinando investimento público e, sobretudo, parcerias privadas”.
O que ficou mal explicado: Até hoje, obras das duas edições do PAC não foram concluídas – algumas sequer saíram do papel.

Reforma política

O que ela disse: “Uma reforma profunda que é responsabilidade constitucional desta Casa, mas que deve mobilizar toda a sociedade na busca de novos métodos e novos caminhos para nossa vida democrática. Reforma política que estimule o povo brasileiro a retomar seu gosto e sua admiração pela política”.
O que ficou mal explicado: a reforma política é uma velha pretensão do PT, que vê no avanço do projeto uma janela para tentar aprovar o financiamento público de campanha – que, na prática, beneficiaria o partido com a maior fatia de recursos do fundo partidário, ou seja, ele próprio.

Inflação

O que Dilma disse: Em todos os anos do meu primeiro mandato, a inflação permaneceu abaixo do teto da meta e assim vai continuar.
O que ficou mal explicado: a inflação está acima do teto da meta de 6,5% em 2014 há quatro meses consecutivos

Dívida líquida X dívida pública

O que Dilma disse: Além disso, a dívida líquida do setor público é hoje menor do que no início do meu mandato.
O que ficou mal explicado: a realidade, segundo dados divulgados pelo Ministério da Fazenda na terça-feira, é que, em 2014, a dívida subiu pela primeira vez em cinco anos. Já a dívida bruta, indicador mais recomendado para medir a saúde fiscal de um país, está acima de 65,8% do Produto Interno Bruto (PIB), nível acima do que foi deixado pela administração de Lula

Investimento estrangeiro direto

O que Dilma disse: Os investimentos estrangeiros diretos atingiram, nos últimos quatro anos, volumes recordes.
O que ficou mal explicado: O investimento estrangeiro direto permanece estagnado no Brasil há quatro anos e as projeções são de que encerre 2014 num patamar abaixo do registrado em 2011.

Direitos trabalhistas

O que Dilma disse: Reafirmo meu profundo compromisso com a manutenção de todos os direitos trabalhistas e previdenciários.
O que ficou mal explicado: antes de tomar posse, a presidente autorizou mudanças nos benefícios previdenciários, restringindo o acesso ao seguro-desemprego e à pensão por morte

Pobreza

O que Dilma disse: Em meu primeiro mandato, o Brasil alcançou um feito histórico: superamos a extrema pobreza.
O que ficou mal explicado: dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad), feita pelo IBGE, mostram que, em 2013, a miséria aumentou pela primeira vez em dez anos. O número de brasileiros abaixo da linha da pobreza aumentou em 3,68% no ano passado.

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