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Vício em sexo deve se tratado como doença, diz especialista

viciado em sexoSexo é um assunto que, quando colocado em xeque, gera impressões que variam entre o incômodo, o prazer, a vergonha, o desprendimento e até a dissimulação; quase nunca a doença e ao descontrole.
Mas a discussão veio a tona com a estreia de “Ninfomaníaca”, filme do polêmico diretor dinamarquês Lars Von Trier, que aborda a compulsão sexual de uma mulher ao longo da vida, e ganhou um viés que se difere da banalização, da vulgaridade ou da simples necessidade em fazer sexo.

“A ideia de uma prática sexual com intensidade desmedida e muitas vezes promíscua e sem precaução está vinculada a grande sofrimento individual, familiar e social”, explica o psiquiatra e psicoterapeuta Jovino Araújo.

É como o vício em jogos, bebida, drogas e comida: traz um sofrimento patológico. Tanto que a compulsão sexual é tratada como doença. E pode destruir vidas, porque só é notada pelo compulsivo quando traz danos.“É como uma droga, você começa e não quer parar. É uma doença, eu trato como isso. Só percebi o que estava fazendo quando perdi o emprego”, sintetiza Paola, 26 anos, que é casada e mãe – o nome aqui é fictício: a entrevistada não quis se identificar por conta do preconceito.

Paola relaciona sua compulsão por sexo com desconhecidos com momentos que não viveu na adolescência. “Era gorda na adolescência e só tive um namorado, que hoje é meu marido. Nunca havia recebido uma cantada de ninguém, a não ser dele, até fazer uma cirurgia bariátrica. Ninguém nunca tinha me desejado”, justifica.

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A jovem perdeu o emprego em um shopping após ser flagrada por um segurança do local, na escada de emergência, fazendo sexo com um cliente da loja onde trabalhava. Foi quando se deu conta de que precisava de ajuda. “Admito que procurei tratamento mais por ter perdido o emprego e não pela traição, até porque não tinha sido a primeira vez. A adrenalina é o que me move a continuar, porque amo meu marido e nem penso em me separar”, desabafa.

Uma vida, dois personagens

A psicóloga especializada em sexualidade humana Isabel Girão, que trata pacientes com compulsão há mais de 20 anos, explica que o paciente só percebe o problema quando começa a sofrer e a medir os danos. “O que te faz ser compulsivo é buscar o prazer, achar um objeto que te dá satisfação, mas nunca se livrar do que origina o problema até o momento que afeta sua vida. Pessoas expostas à ausência de limites são mais propensas a esse tipo de dependência”, diz a especialista.

A falta de limites também pode ser interpretada como um passado de problemas de ordem psicológica ou mesmo psiquiátrica, como publicado recentemente em pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que apontou 72% dos pacientes com compulsão sexual com outro tipo de transtorno psiquiátrico. Ou seja, um desequilíbrio leva a outro.

Jovino Araújo cita transtornos de personalidade, deficiência mental, transtornos de impulso e o transtorno obsessivo compulsivo como distúrbios mais propensos ao desenvolvimento da compulsão sexual, também conhecida como Desejo Sexual Hiperativo (DSH). No entanto, destaca o Transtorno Bipolar do Humor como o mais comum entre os viciados em sexo.

“Na fase de euforia e excitação do Transtorno Bipolar, é comum a ocorrência de grande compulsão sexual, um período no qual homens e mulheres, que fora da crise têm um comportamento social e moral absolutamente bem enquadrados, apresentam uma busca intensa de relacionamentos sexuais, muitos deles de forma arriscada, sem precaução e promíscua”, enfatiza.

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Toda vez que sente vontade de fazer sexo, Paola se veste de um personagem, como ela mesma destaca. “Encaro como se eu fosse uma prostituta e falo para o cara com quem vou para cama fazer exatamente o que ele quiser comigo. Depois tomo banho ou me visto e vou para casa. Aquela aventura fica da porta para fora”.

“É como uma droga, você começa e não quer parar. É uma doença, eu trato como isso. Só percebi o que estava fazendo quando perdi o emprego”, afirma Paola, 26 anos.
Gêneros diferentes, manias iguaisO termo ninfomania está diretamente relacionado às ninfas, figuras da mitologia grega conhecidas pelo seu poder de sedução. As ninfas seduziam deuses gregos e também os sátiros, divindades masculinas compostas por metade homem, metade cabrito. A luxúria entre essas duas figuras origina as nomenclaturas dos distúrbios sexuais feminino (ninfomania) e masculino (satiríase). Apesar da diferença de gêneros, o comportamento sexual de homens ou mulheres compulsivos em pouco se difere, do ponto de vista clínico, explica o doutor Jovino Araújo. “ Os comportamentos sexuais masculino e feminino diferem culturalmente e do ponto de vista orgânico e hormonal, mas a compulsão pode ser vista com o mesmo olhar”.

O que difere a compulsão sexual do vício em bebida ou compras, por exemplo, é o tratamento. Tanto Isabel quanto Jovino acreditam que para curar um viciado em sexo é necessário, primordialmente, tratar as motivações para depois buscar a causa da compulsão.

O diagnóstico preciso exige acompanhamento tanto psiquiátrico quanto psicológico, para que as causas patológicas paralelas possam ser tratadas. “O desejo exagerado por sexo precisa ser olhado terapeuticamente de uma maneira diferente das compulsões ‘fabricadas’. Até porque você pode fazer sexo sozinho. É preciso contornar as respostas e motivações que levam o indivíduo a compulsão. E com elas sob devido controle, buscar a causa do problema”, explica Isabel.

Apesar de ainda não ter buscado tratamento adequado, Paola tem plena consciência da sua compulsão e admite que, mesmo sabendo das consequências, não consegue parar. Não por luxúria – desejo passional instintivo por todo prazer sensual e erótico -, mas sim porque vive uma busca constante pela autossatisfação.

“Eu não consigo definir o que é certo e errado porque na minha cabeça isso não existe. Eu não penso e, quando vejo, estou com mais um. E é só para o sexo. Eu me satisfaço ali e ponto, não quero mais saber. Se fui para cama, não quero mais ver o cara. Não existe amor nem qualquer tipo de envolvimento”, finaliza.

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Vontade incontrolável
“Estava no ônibus sobre a ponte Rio-Niterói, indo para o trabalho, sentada na janela. Foi então que vi um homem no carro ao lado me cantando e fazendo sinal para que eu descesse no próximo ponto. Me fiz de desentendida, mas passei meu telefone e ele me ligou alguns minutos depois. Soube de cara que ele era casado, mas conversamos e ele estava sem fazer nada, nem eu… Ele foi me buscar no trabalho.
Não quis ir ao motel, mas fomos num shopping próximo e demos uns amassos no carro, dentro do estacionamento. Pedi para ele me deixar no terminal de ônibus e, quando cheguei, notei que tinha esquecido meu celular no carro dele. Desesperada e com medo do meu marido ligar e do cara atender, pedi ajuda ao homem que estava na minha frente na fila do ônibus. Pedi o celular dele emprestado e liguei insistentemente para o meu próprio, sem sucesso.
Estava tão nervosa que inventei ter sido assaltada, mas ele não engoliu a história e eu disse que tinha traído meu marido pela primeira vez. No auge do nervosismo, acabei contando o que tinha acontecido de verdade e notei que ele era bem bonito. Já era noite e entramos no ônibus. Ele sentou ao meu lado e finalmente consegui falar com o primeiro homem, que prometeu levar meu celular até a porta do meu trabalho no dia seguinte.
Logo depois, acabei ficando com o homem que me emprestou o celular, justamente no ônibus que me levaria até minha cidade. Alguns conhecidos do meu marido embarcaram nele também, mas na hora nem liguei. E ele também não descobriu. No outro dia, recebi meu celular e dispensei o cara. Ele nunca mais me procurou”.