Visão do PT é autoritária, mas objetivo não é isolá-lo, diz Carlos Siqueira

Visão do PT é autoritária, mas objetivo não é isolá-lo, diz Carlos Siqueira

Presidente do PSB, Carlos Siqueira, fala ao Poder360 sobre a organização da oposição durante o governo Bolsonaro.

O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, disse que a formação de uma frente parlamentar de esquerda sem o PT não é feita com o objetivo de isolar a sigla. Ao Poder360, ele afirmou que PSB, PDT e PC do B querem apenas se diferenciar do tipo de oposição feita pelo PT.

Ao participar de reunião com a bancada petista no Congresso Nacional no último dia 21, o ex-candidato a presidente Fernando Haddad (PT) criticou a formação do bloco e disse que “ou é miopia ou não seria tão de esquerda“. O presidente do PSB classificou como inaceitável a declaração.

“O PT não tem o monopólio da esquerda. Nós somos de esquerda e existimos desde 1947, eles passaram a existir em 1982. Isso revela essa visão exclusivista do PT, que acha que onde eles não estiverem, não é esquerda. Isso é uma visão autoritária e inaceitável”, afirmou.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, o senador Humberto Costa (PE) e os deputados José Guimarães (CE) e Paulo Teixeira (SP) procuraram Siqueira para conversar sobre a formação desse grupo e falaram que o partido não quer a hegemonia da oposição ao presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

“Disseram claramente que não desejariam liderar a frente parlamentar, mas eu também disse que há setores que não desejam que esse bloco inclua o PT. Não é isolamento, mas apenas uma diferenciação que se deseja fazer de 1 tipo de oposição que não é exatamente igual” declarou.

Na Câmara dos Deputados, há negociações para que esse bloco também inclua PV e PPS.

O senador eleito Cid Gomes (PDT-CE) e o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) articulam a formação de 1 bloco de oposição nos mesmos moldes no Senado. Além do PDT e da Rede, comporia esse grupo PSB, PPS e PRP.

De acordo com Siqueira esse bloco de oposição atuaria em conjunto para negociar cargos na Mesa Diretora das duas Casas Legislativas, relatoria de projetos e cargos em comissões.

Ao falar sobre a sucessão na Presidência da Câmara, o presidente do PSB não descartou apoio da sigla à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ). “Precisamos ter à frente da Câmara alguém com boa convivência com as mais diferentes forças políticas. O Rodrigo Maia tem essa capacidade”, disse.

No entanto, o partido não definiu posição e conversa com outras forças políticas. A decisão deve ser tomada em conjunto com o bloco. PSB, PDT e PC do B elegeram, somados, 69 deputados.

O presidente do partido socialista preferiu não indicar preferência para o comandante do Senado, mas citou qualidades que o postulante ao cargo precisa ter: “Precisamos de 1 presidente que além dessa capacidade de diálogo, também tenha pulso para conduzir a casa de maneira autônoma”.

Simone Tebet (MDB-MS), Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Davi Alcolumbre (DEM-AP) tentam se viabilizar para ter o apoio da oposição.

Assista a íntegra da entrevista:

Leia os principais trechos:

Poder360: Neste 1 mês pós-eleições, qual o balanço da atuação do PSB para o próximo governo?
Carlos Siqueira: Por meio dos nossos líderes na Câmara e no Senado procuramos outros partidos de esquerda para formar 1 bloco parlamentar. Inicialmente está mais seguro PSB, PDT e PC do B, mas também pode agregar o PPS e o PV.

Como andam o diálogo com os outros partidos de esquerda? O senhor conversou essa semana com a presidente do PC do B, Luciana Santos, outros também serão procurados como os do PT, PDT e Psol?
Recebemos a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, junto com os líderes na Câmara e no Senado, o senador Humberto Costa, os deputados José Guimarães e Paulo Teixeira. No dia seguinte recebemos a presidente nacional do PC do B, deputada Luciana Santos, e discutimos o quadro político nacional.

No caso específico do PC do B, discutimos a formação desse novo bloco. Diferente do que diz a imprensa, não visa o isolamento do PT, é 1 partido grande, que fez a maior bancada na Câmara dos Deputados, terá seu papel de oposição. Nós do outro lado, com PC do B e PDT, faremos outro bloco para ocupar espaços estratégicos, como presidência de comissões e relatoria de projetos.

O principal desafio é lutar pelo respeito à Constituição e pela garantia da democracia. Por vezes se colocam dúvidas, dada algumas declarações do candidato vencedor, que apontam na direção de 1 governo autoritário. Esperamos que não se confirme, mas se confirmar, precisamos estar preparados para qualquer aventura autoritária.

Nessas conversas com o PT, eles demonstraram algum recuo em ter papel de protagonismo?
Disseram claramente que não desejariam liderar a frente parlamentar, mas eu também expressei com toda sinceridade que há setores do partido que não querem que esse bloco inclua o PT. Não é isolamento, apenas uma diferenciação que se deseja fazer de 1 tipo de oposição que não é igual a do PT. Embora, naturalmente com o PT e 1 outro sem número de partidos poderemos ter lutas similares no Congresso e na sociedade.

Haddad disse que a frente sem o PT ou é miopia ou não tão esquerda assim, acha que a crítica faz sentido?
Acho absolutamente inadequada porque o PT não tem o monopólio da esquerda. Nós somos de esquerda e existimos desde 1947, eles passaram a existir em 1982. Isso revela essa visão exclusivista do PT, que acha que onde eles não estiverem, não é esquerda, isso é uma visão autoritária e inaceitável.

Quem o partido vai apoiar na Câmara? Na última eleição, o PSB esteve com Rodrigo Maia, o apoio vai se repetir?
Temos abertura para conversar com Rodrigo Maia, mas não há definição para apoiar o nome dele, nem de qualquer outro. Há até parlamentar do partido que deseja ser candidato, não sabemos se será. Precisamos ter muito cuidado com a eleição para presidente da Câmara, porque é uma área muito importante para resistência à políticas conservadoras que se prenunciam.

Quem seriam os deputados do PSB que querem ser candidatos?
O deputado JHC (João Henrique Caldas), de Alagoas, fala que gostaria de tentar, mas está discutindo essa matéria ainda. O partido tem que fazer uma avaliação para ter à frente da Câmara alguém que possa ter boa convivência com as mais diferentes forças políticas. O Rodrigo Maia tem essa capacidade, mas há conversas com outras forças e acho que ainda é cedo para adotarmos uma posição definitiva.

Essa posição vai ser tomada em bloco? Com PC do B e PDT?
Seria ideal que o bloco como tal, que congregaria algo mais de 60 parlamentares, pudesse tomar sua decisão, incluindo participação na Mesa da Câmara, em comissões e em relatorias. Eu defendo que o bloco tenha uma posição única na sucessão da presidência da Câmara.

E no Senado? PSB apoiaria Tasso Jereissati, Simone Tebet, Renan Calheiros ou Davi Alcolumbre?
Seria muito importante 1 presidente que, independente de sua posição política, tenha o equilíbrio para conduzir o Senado com independência do Poder Executivo. Não quer dizer que vai inviabilizar o funcionamento do Poder Executivo, muito pelo contrário, até porque não queremos inviabilizar o país, queremos que as coisas funcionem de maneira equilibrada. Para isso precisamos de alguém com capacidade de diálogo e de conduzir de maneira autônoma.

O que acha do diálogo de Tasso com setores do PSL, isso afastaria 1 possível apoio do PSB?
Acho que o diálogo tem que se dar com todas as forças políticas que compõem o Congresso, afinal o presidente terá de conviver com todas que estão representadas. Não vejo nada demais em ter conversas com o PSL. Entretanto, precisamos de 1 presidente que além dessa capacidade de diálogo, também tenha pulso para conduzir a casa de maneira autônoma.

Quem teria esse pulso?
Ainda não poderíamos dizer, há vários. São conversas prévias, isso vai se afunilando em janeiro e os nomes vão se confirmar, se fortalecer e se mostrar viáveis ou não.

Márcio França perdeu por uma margem pequena em São Paulo, qual vai ser o papel dele daqui para frente?
Ele tem 1 capital político extraordinário. Ele precisa administrar esse capital político e o partido precisa ajudá-lo nisso.

A classe política tradicional recebeu 1 recado muito contundente dos eleitores. O DEM foi com 43 deputados e voltou com 29, o PMDB foi com 56 e voltou com 34, o PTB foi com 23 e voltou com 10, o PSDB foi com quase 50 e voltou com 29. Nós fomos para a eleição com 21 deputados, porque 1 desistiu e 4 foram para eleições majoritárias e voltamos com 32. Escapamos da penalização do eleitor. Recuperamos o número da bancada, havíamos perdido depois de saírem 12 deputados, dos quais 10 foram para o DEM. Deles só 1 foi eleito.

Uma dessas deputadas que foram para o DEM é hoje ministra nomeada por Bolsonaro, futura ministra da Agricultura Tereza Cristina. Ela não teria identidade com o PSB? Por que ela foi filiada?
Ela não saiu, foi saída, assim como os outros, nós íamos expulsar. Depois eles nos procuraram, fizemos 1 acordo e assinei a carta de desfiliação com o maior prazer. Tenho o maior respeito, mas eles estavam como intrusos em 1 partido com uma história longa de centro-esquerda. Eles, como a Tereza Cristina, são conservadores. Ficamos muito felizes com a saída deles.

A que se deveu a filiação desses políticos não identificados com as pautas da esquerda? Teria algo a ver com gestão de Eduardo Campos na Presidência do partido?
A candidatura do Eduardo Campos [a presidente em 2014] despertou muito interesse no mundo político. Os oportunistas veem o rumo do vento e correm para lá. São parlamentares que nunca vi na oposição, só no governo, eles pensaram que Eduardo fosse governo. Lamentavelmente houve aquela tragédia [morte de Eduardo Campos durante a campanha presidencial]. Demonstraram na prática que estavam no lugar errado e nós indicamos o caminho que deviam seguir. Felizmente eles foram e espero que nunca voltem.

Qual é o papel de Joaquim Barbosa no partido? Ele pode exercer cargo na Executiva Nacional ou comandar algum setor da sigla?
Tentamos projetar a candidatura de Joaquim Barbosa porque percebemos que essa eleição seria atípica e que não seria eleita uma candidatura convencional. Lamentavelmente o ministro Joaquim Barbosa desistiu. Se ele tivesse continuado, ele que seria o presidente do Brasil.

Continua filiado, estive com ele recentemente. Inclusive levei o Haddad à sua residência. Depois deu uma declaração final de apoio. Esperamos que ele possa dar sua contribuição para a renovação da política e que possa ajudar o partido a se oxigenar e oferecer uma alternativa no futuro ao país.

João Campos, filho de Eduardo Campos, foi o deputado mais votado de Pernambuco, qual papel ele terá na Câmara e no partido?
Ele foi eleito com 500 mil votos não apenas por ser filho de Eduardo Campos. Assim como o pai não se viabilizou por ser neto de Miguel Arraes, mas sobretudo por ter talento político. Eu conheço o João desde pequeno. O espaço e o destaque é conquista de cada 1 e portanto acho que vai se destacar porque tem talento político e vai corresponder a expectativa que esses milhares de eleitores tem sobre ele. Ele é uma nova liderança no partido.

Há ainda feridas que precisam ser cicatrizadas em relação à Marília Arraes? Ela será uma voz de oposição ao governador Paulo Câmara (PSB-PE) dentro do Congresso?
Não sei como se comportará, mas o tempo acaba resolvendo alguns problemas que a gente não consegue resolver.

Qual será o futuro do governador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF)? Ainda pretende seguir na vida pública?
Ele pegou o Distrito Federal em uma situação deplorável do ponto de vista das finanças públicas. Sucedeu governadores que foram presos, processados e comentaram responsabilidades sem precedente na história da capital. Teve de tomar alguma medidas impopulares. Penso que faltou 1 pouco de política no governo dele. Foi pautado pela ética, não há denúncia de corrupção. A derrota na vida de 1 político deve ser encarada com naturalidade. Acredito que ele foi injustiçado, mas na eleição seguinte os eleitores podem fazer a compensação. Ele não sairá da vida pública, continuará atuando como membro da Executiva.

O senhor disse que faltou política, como assim?
Eu acho que ele foi eleito por uma frente bastante ampla, ela foi desfeita e não se colocou nada no lugar. Se envolveu tanto na solução dos problemas administrativos que esqueceu de fazer política.

Poder360